a história das corporações
EP#248: Isac Costa comenta sobre a história das corporações.
2025 248Sobre o episódio
LANGLOIS, Richard M. The Corporation and the Twentieth Century — a history of US business, 2023. Isac Costa comenta sobre a história das corporações.
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Direito Empresarial Café com Leite. Um gole de conhecimento jurídico na sua rotina. Olá, eu sou Amanda Athayde, mineira formada na UFMG e cruzeirense na origem, com passagem em São Paulo, no Largo São Francisco, USP e hoje, Candanga, Fluminense e UNB de coração. Eu sou casada, mãe do Pedro de 7 anos. Pedro Athayde, livre por Real Madrid, Paris, Chelsea e Fluminense. E do Lucas de 5 anos. Lucas Ataíde, eu, padrão, chefinho, Grizz, Spidey, seus amigos espetaculares e pronto. Além de tutora do vira-lata farofa. A proposta do Direito Empresarial Café com Leite é simples. Tornar o Direito Empresarial mais leve, acessível e presente no seu dia a dia. Como um bom café com leite que te acompanha na rotina diária. Seja no caminho para o trabalho, na volta para casa, durante o café ou até na hora de fazer o exercício físico. O podcast está aqui para trazer um gole de conhecimento jurídico sem complicação. Se quiser navegar pelos episódios, não deixe de acessar o nosso site, podcast.direitempresarialcafécomleite, e também nas nossas redes sociais, no Instagram, arroba direitempresarialcafécomleite, no YouTube, professora Amanda Taíde, e no LinkedIn, Amanda Taíde.
Vamos comigo então para a próxima xícara de café com leite? A nossa xícara de café com leite de direito empresarial de hoje vai tratar do livro do professor Richard Langlois, intitulado The Corporation and the Treated Century, A History of U.S. Business. E para isso a gente vai ter a alegria de contar com a participação do professor Isaac Costa para comentar o livro do professor Richard Langlois. O professor Isaac é professor e advogado, ex-analista de mercados capitais da CVM, trabalhou na supervisão de mercado e instrução de processos de manipulação e em cyber trading e também atuando como assessor do colegiado. É doutor em Direito Econômico e Financeiro pela USP, mestre em Direito nos Negócios da VGV e bacharel em Direito pela USP, graduado com distinção acadêmica, além de engenheiro de computação no ITA. Ele é professor em cursos de pós-graduação e educação executiva, com ênfase na relação entre Direito, Finanças e Tecnologia.
Ele possui mais de 20 anos de experiência multidisciplinar envolvendo gestão e desenvolvimento de sistemas de informação e regulação e supervisão no mercado financeiro. As áreas de interesse dele são inovação e regulação no mercado financeiro, direito societário e financiamento da atividade econômica. Professor Isaac, é uma alegria enorme você ter aceitado para participar aqui do nosso podcast e por apresentar de um modo simples, curto e gostoso. esse livro do professor Richard Langlois sobre a questão da história das corporações. Professor, conta para a gente então quem que é o professor Richard Langlois, qual que foi o contexto da redação desse livro, como que ele trata desse livro que trata sobre a ascensão e a queda da sociedade gerencial. Conta um pouquinho mais do autor e da obra. Olá, professora Amanda, é um prazer estar aqui com você nesse podcast. queria primeiro agradecer você por não desistir de mim insistir no convite espero que esse nosso papo traga bastante informação útil para os seus alunos, queria lhe parabenizar por essa iniciativa sempre muitas ideias bacanas originais, enfim, a gente acaba tendo contato gente do Brasil inteiro, além dos seus alunos com muitas das melhores pessoas as melhores cabeças do direito empresarial então realmente eu fico muito feliz de ter sido incluído aqui e espero que a nossa conversa seja produtiva.
Então vamos lá. Inicialmente, é preciso dizer, antes de falar do autor, por que vale a pena ler um livro como esse? Eu acredito que na literatura, na bibliografia básica do direito comercial, existem alguns textos, como a Teoria da Firma, do Coase, e também o texto clássico de Burley Means, The Modern Corporation and Private Property. E, claro, muita literatura referência ao direito comercial italiano, ou então com foco nas feiras medievais, na expansão marítima comercial. E eu acredito que a gente precisa deslocar um pouquinho a linha do tempo para uma literatura um pouco mais moderna, para não dizer contemporânea. Então, se, por exemplo, lá na década de 30, lá nos anos 20, nos anos 30, autores norte-americanos identificaram um tipo de controle, chamado controle gerencial nas corporations naquele país, o que isso significou?
Por que isso surgiu exatamente naquele contexto histórico? E ainda, será que hoje, no século XXI, é isso que a gente está vivendo? O que aconteceu entre os anos 30, os anos 40 e quase 100 anos atrás, e o final do século XX? Então eu acredito que tem alguns livros que nos ajudam a tentar entender essa linha do tempo histórica, da devolução do direito empresarial. E a gente pode investir um pouco mais de tempo, claro, não renunciar aos clássicos, mas até para não correr o risco de anacronismos, de usar tipos e lentes atuais para fenômenos históricos, onde, por exemplo, o conceito de companhia não é bem o conceito que a gente tem hoje. os princípios são os mesmos, mas não é a mesma corporation que a gente tem hoje, acho que vale a pena a gente se voltar para uma literatura mais contemporânea. Dito isso, é preciso dizer também que esse é um texto multidisciplinar. O professor Richard Langlois é professor de economia lá na Universidade Connected Church, desde 1983, e ele leciona temas como história do pensamento econômico, organização industrial, economia da organização.
Então eu diria que ele está na fronteira na interseção entre a teoria da administração, a nova economia institucional, e, por que não dizer, não exatamente o professor de direito, mas, enfim, a organização da empresa e da organização da atividade empresarial, que é basicamente o objeto do contrato de sociedade, é um contrato de organização da atividade empresarial. Ele publicou nesse livro que a gente vai se debruçar hoje, que é o The Corporation in the 20th Century, a corporação e o século XX, e o reflexo dessa organização empresarial na economia norte-americana no século XX. Ele publicou esse livro em 2023, foi um livro que teve uma boa repercussão, e ele havia publicado em 2007 um outro livro, A Dinâmica do Capitalismo Industrial, um livro que não foi traduzido, eu estou traduzindo livremente o título, em que ele coteja ideias de Joseph Schumpeter e Adolf Schadler. Então, é realmente um autor para a gente inserir, para quem gosta de nova economia institucional, para quem gosta de estudar a teoria das organizações, teoria da administração, é um autor interessante para a gente colocar no radar.
E o tema central desse livro é a noção de sociedade gerencial. A gente vai desenvolver um pouquinho melhor esse tema nas respostas seguintes, Mas basicamente a ideia é uma sociedade em que quem manda nela não são os acionistas, mas sim o corpo gerencial, ela tem algumas características específicas que a gente vai explorar, hierarquia, uma organização em multidivisões, um forte investimento em laboratórios de pesquisa e desenvolvimento. Durante algum tempo, esse tipo de sociedade gerencial foi responsável pelas inovações mais relevantes do século XX. Foi um tipo que floresceu muito grande, só que em determinado momento elas ficaram grandes demais para serem viáveis em função de um novo contexto histórico que a gente também vai explorar aqui nesse palco. Então, acho que a principal lição que o professor Langley traz é que não é que uma forma, um determinado arranjo, seja superior a outro. Ou necessariamente uma forma de organização da empresa vai ser a única, vai ser o fim da história no direito empresarial, ou então pelo menos o fim da história no que diz respeito à corporate law.
Não existe essa ilusão de fim da história. O que acontece é que o momento histórico, as estruturas econômicas, a evolução do mercado de capitais, a facilidade ou não de você acessar capital, a intensidade da regulação, as preocupações antitrust, tudo isso vai determinar, vai conformar a ordem econômica e influenciar os tipos societários, os arranjos para que sejam relacionados, para que sejam desempenhadas as atividades econômicas. Eu diria que esse texto dialoga muito com a ideia de que ou você internaliza a atividade ou você estabelece um nexo de contratos, uma rede de colaboração. E, vamos dizer assim, outros tipos alternativos que surgiram mais recentemente, hoje não significa que a gente não tem mais grandes companhias, não significa que as companhias que nós temos hoje não têm uma administração profissional em pessoal, mas o fato é que o controle hoje já não está mais naquele corpo gerencial que controla várias unidades dentro da mesma empresa. Hoje nós temos holdings, nós temos acionistas e o poder de controle se deslocou do âmbito gerencial para um poder de controle realmente de blockholders, de determinados conjuntos de acionistas, seja controle majoritário ou controle minoritário, e aí surgem redes empresariais de colaboração, e você tem hoje investimentos em pesquisas e desenvolvimentos segregados, unidades de negócios segregadas, então você tem uma espécie de divisão do trabalho, por assim dizer, muito mais fragmentada. Então a gente vai explorar um pouco isso nessa conversa.
Então, o autor Richard Langlois comenta sobre algumas características do que ele chama de sendo uma sociedade gerencial e ele trata também como que essas sociedades colaboraram para o desenvolvimento das corporações. Conta para a gente, professor Isaac. Bem, o que é essa sociedade gerencial? A gente adiantou um pouquinho na primeira resposta, mas basicamente a mão invisível do mercado é substituída por uma mão visível da administração, do corpo gerencial da sociedade. Essa é uma elaboração de Adolf Chandler. E outro ponto também que o professor Langlois traz é que em um contexto onde o mercado era fraco, as organizações se tornaram fortes, as sociedades gerenciais dominavam o mercado. Então surgiu um conjunto de hierarquias gerenciais, estruturas organizacionais bem complexas com alguns níveis de gerência. Essa gestão era profissionalizada.
Esses gestores começaram a adotar uma abordagem científica, uso de dados, uso de técnicas de monitoramento da produtividade. e principalmente, aqui um ponto de interseção com o direito concorrencial, você tinha uma forte integração vertical de diversas etapas da cadeia produtiva, elas eram internalizadas e também com o passar do tempo você também teve, para aproveitar economias de escopo, uma expansão para novos mercados de produtos, então também houve uma integração, que a gente pode dizer, horizontal, Mas talvez o principal ponto, a principal característica dessa sociedade gerencial é exatamente a separação entre propriedade e controle. Ou seja, quem mandava na sociedade não eram os acionistas, mas sim esse corpo gerencial. Então, basicamente, todo o desenvolvimento da economia norte-americana, as principais inovações ali entre os anos 20 e 30, principalmente nos anos 30, depois com o New Deal, depois da depressão, da grande depressão norte-americana, em que o acesso a crédito começou a ficar muito difícil, o acesso ao mercado de capitais começou a ficar muito difícil, e a regulação norte-americana mudou, o tom da regulação, o enfoque, enfim, as diretrizes da regulação mudaram.
Nós tivemos então um enorme desenvolvimento dessa sociedade gerencial até mais ali o início dos anos 70, Então a gente está falando de um fenômeno histórico bastante delimitado, e não de uma forma que se tornou perene. A gente ainda tem resquícios dela. Entretanto, o autor se debruça sobre essa janela ali, entre a década de 1930 e a década de 1970, onde a gente teve realmente, vamos dizer assim, o início de um fenômeno muito interessante, do surgimento de grandes corporações. Ainda não é o caso de grandes conglomerados transnacionais, mas de grandes corporações nos Estados Unidos. Talvez os dois melhores exemplos que ele trabalha no livro são a Dupont e a Bell Labs. A Dupont, após a Primeira Guerra Mundial, ela teve um problema de excesso da capacidade produtiva, ela produzia pólvora sem fumaça, e aí ela passou a diversificar seus negócios. Ela entrou em mercado de tinta, plástico, fibra sintética e principalmente nylon. O nylon foi uma grande conquista do laboratório de pesquisa e desenvolvimento da Dupont.
Porém, lá no século XX, no final do século XX e no século XXI, essa empresa que já foi o ícone dessa corporação integrada e diversificada, ela se desintegrou. Então, o autor fala que essa mão visível da administração, da sociedade gerencial, ela se torna uma espécie de mão evanescente. e a Dupont passou a se desfazer de seus negócios, começou a ter um problema de desmantelamento e focou em algumas áreas mais especializadas. Houve uma cisão da empresa em entidades menores. E o seu laboratório de pesquisa foi fechado em 2016, foi um grande símbolo dessa mudança, dizendo que esse modelo de pesquisa e desenvolvimento, de P&D centralizado, já não fazia mais sentido. Igualmente, também a Beolabs, parte da TIT, extremamente inovadora, foi criado em 1925, como entidade separada da TIT, e que tinha um determinado contrato de exclusividade com a Western Electric. Tinha um compromisso fundamental com pesquisa, e basicamente o transistor, como queira falar, que foi fundamental para o surgimento dos microprocessadores, enfim, para a primeira geração de hardware, que propiciou a revolução dos computadores, foi um fruto da Bell Labs.
várias patentes, são muito notáveis, e isso foi fruto exatamente de uma sociedade gerencial enorme, burocrática, com um corpo gerencial bastante visível, organizado em várias divisões. Porém, com o passar do tempo, essa estrutura se desintegrou, principalmente em função de uma decisão antitruste de 1982, foi o fim desse sistema integrado, E a estrutura da TIT passou a ser, em vez de um monopólio regulado, que tinha um forneço educativo, que era o Western Electric, em vários casos esse esquema retardou a inovação. A empresa não tinha incentivos para tomar riscos e com o passar do tempo, novas tecnologias surgiram, o mercado passou a ser mais competitivo e essa corporação simplesmente foi diluída, passou a ser desintegrada. Então, esses dois casos são exemplos de gigantes corporativas que tinham condições de internalizar as transações, elas não exploravam esse nexo de contratos, essas estruturas em rede, elas conseguiam coordenar essas atividades complexas, mas elas não conseguiram manter esse modelo de integração vertical e centralização de pesquisa e desenvolvimento diante de um mercado que precisava de mais eficiência, um mercado mais maduro, com novas tecnologias, um mercado que favorece uma abordagem modular, mais especializada.
Então, basicamente, esses são dois exemplos da tese central do livro. Espera só um pouquinho, que eu já volto para falar com o nosso entrevistado. O que você curte direito empresarial eu já sei, Porque você está aqui, ouvindo o nosso podcast. Agora, se você tem interesse em se especializar em alguma das sub-áreas do direito empresarial, como direito concorrencial, comércio internacional ou mesmo os acordos de empresas com o poder público, não deixe de procurar no meu site amandataide.com.br a aba Cursos Online. E você pode encontrar o curso perfeito para você. Eu elaborei com muito cuidado o curso de pós-graduação e outros cursos de especialização que podem dar aquele empurrão na sua carreira jurídica. Eu já peguei a minha xícara de café com leite, vamos voltar então à nossa conversa com o entrevistado? E agora que a gente entendeu essas características, conta para a gente, a estrutura da empresa em forma de corporação foi considerada como uma forma de estabilidade durante a década de 1960.
Mas o professor Richard Langlois, ele compreende que as mudanças ocorridas dentro da estrutura gerencial da empresa fizeram com que a estabilidade acabasse. Quais foram essas mudanças e quais que o senhor entende que tenham sido as principais razões do impacto? Bem, que mudanças que levaram essa estabilidade? É preciso dizer, então, que a gente tinha burocracias muito bem estabelecidas, marcas muito fortes, patentes, investimento pesado em P&D, uma das características dessas sociedades gerenciais é exatamente essa organização em múltiplas divisões. Então você tinha um cérebro dessa organização que era essa estrutura gerencial que controlava essas divisões. Só que a partir dos anos 90, um dos marcos que o autor coloca é o ano de 1972, ali na vizinhança dos choques do petróleo e de fim de Bretton Woods, Nessa vizinhança, no início dos anos 70, basicamente você começou a ter os primórdios do que hoje a gente chama de globalização e um aumento da competição internacional. As economias europeias e as economias asiáticas no pós-guerra começaram a se fortalecer, o domínio das empresas norte-americanas começou a ser desafiado.
Além disso, algumas dessas grandes corporações se beneficiavam de algumas barreiras de entrada regulatórias que deixaram de existir. Então, uma desregulamentação permitiu novos entrantes, novas formas de organização, um aumento da competição, novas tecnologias, principalmente a microeletrônica, surgimento de tecnologias de informação, ainda não era o momento do computador, mas os custos de informação, os custos para você obter dados sobre as outras partes, para você fazer negócios, um dos grandes custos de transação é realmente o custo de obter informações necessárias para você tomar decisões no curso da relação contratual, entre outras. A gente começou a ter um mercado muito mais transparente em termos de fluxo de dados e isso certamente facilitou esquemas de coordenação de mercado em vez de esquemas hierárquicos. Então a integração vertical acabou deixando de ser necessária ou, vamos dizer assim, protagonista. E principalmente, a gente vai desenvolver um pouco isso melhor numa outra pergunta, mas a evolução dos mercados de capitais fez com que esse modelo, onde há o conflito de agência entre a administração gerencial e os acionistas, fosse não exatamente exacerbado, mas a sua constatação levasse a arranjos que procurassem mitigar os riscos decorrentes desse conflito de agência.
E aí o fortalecimento do mercado de capitais levou ao desfazimento dessas grandes corporações e ao surgimento de redes. Você tem hoje holdings, você tem grandes controladores, mas é um cérebro diferente. não é o cérebro de um corpo gerencial dentro de uma única organização que controla divisões, mas sim organizações apartadas que atuam em rede. Então essa forma em M, o autor chama de forma multidivisional, ou M-form, com vários escritórios centrais que supervisionavam essas divisões, que eram relativamente autônomas, essa estrutura consagrada acabou se tornando superada com o passar do tempo. Ela era vista como estável, ela era vista como realmente o fim da história em termos de organização da atividade econômica, mas com o passar do tempo, principalmente, por exemplo, com a evolução da legislação concorrencial, essas diversas unidades de negócio passaram a ser vistas como pontos de quebra para autoridades antitrust.
Isso facilitou o desmantelamento dessas organizações. Então são vários fatores históricos e a tese principal do autor é exatamente que você teve esse inchaço, essa espécie de, vamos dizer assim, consolidação. Fazendo uma analogia aqui com o que acontece dentro das estrelas, você começa a ter o processo da fusão nuclear, o átomo de hidrogênio vira átomo de hélio e aí eles vão aumentando em termos de massa atômica até chegar no átomo de ferro, que é um átomo muito pesado e a partir dali a fusão nuclear se torna inviável e a estrela morre. A estrela explode em uma supernova ou ela implode, vira uma nan e em alguns casos surge um buraco negro. Então diante disso há algo talvez, um paralelo talvez um pouco imperfeito, mas é algo parecido que a gente viveu aqui. A gente tem essa visão hoje de grandes conglomerados, mas as sociedades gerenciais que foram realmente dominantes entre a década de 30 e a década de 70, nos Estados Unidos principalmente, elas têm uma estrutura interna e um papel, um contexto histórico diferente das grandes sociedades que nós temos hoje.
E agora para entender, né, da aplicabilidade dessa teoria do professor Richard Langlois, ainda há resquícios do que a gente chama de sociedade gerencial ou houve superação desses seus principais aspectos? Qual que é a visão do autor a respeito da tentativa de o governo intervir na atividade das corporações? Para ele essa tentativa então foi efetiva? É só pergunta interessante no sentido de que, olha, tá bom, para que serve tudo isso? Tudo que a gente está, é uma filosofia diletante? Na verdade, a sociedade gerencial ainda encontra resquícios, a gente ainda tem resquícios dela hoje em alguns terrenos, ela é uma sociedade hierárquica, burocrática. Então, se você tem setores altamente regulados ou com alto custo fixo, que você tem uma competição limitada, esse tipo ainda existe. Só que, em outros casos, se temos um ambiente mais competitivo, competitivo, nós temos ecossistemas empresariais com redes descentralizadas, startups especializadas, um altíssimo grau de especialização no objeto das empresas.
E essas empresas com estruturas enxutas, elas ganham protagonismo. Então esse modelo inchado de uma incorporação quase que fordista, ele passa a ser substituído por uma Apple ou por uma Amazon, que são empresas gigantes, mas que empresas que terceirizam a produção, que coordenam fornecedores globais e que estão menos próximas de firmas, no sentido de COS, de hierarquias, e mais próximas de nexos de contratos. É claro que a necessidade de uma gestão profissional e a necessidade de coordenação em larga escala ainda existem, só que as formas, os mecanismos de você fazer isso evoluíram. As mãos são diferentes. então é o que o autor fala que algumas dessas pequenas empresas disruptivas no final do século XX elas cresceram elas se tornaram gigantes, parecidas com gigantes do início e do meio do século XX levando a gente a achar que de repente essa forma de grande corporação é a mesma, mas o autor alerta que não é o caso muitas vezes esse debate antitrust ligado ao que a gente está vendo hoje com o Facebook, com a Amazon com a própria Apple esse debate não está devidamente informado pela história.
A gente tem arranjos diferentes, até mesmo em termos de guerra tarifária, na colaboração entre empresas de diversos países. Então, uma expressão que é bem interessante que o autor coloca é que quando o mercado tem poder, as empresas não são protagonistas, é o mercado que é protagonista. A gente tem essa ênfase no nexo de contratos. Por outro lado, se o mercado começa a ter falhas, começa a não desempenhar suas funções a contempo. Então as empresas acabam se tornando protagonistas e foi exatamente o que aconteceu depois da Primeira Guerra, depois da Grande Depressão de 1929 e também durante algum período depois da Segunda Guerra. Então as forças do mercado hoje foram eclipsadas no auge da Grande Depressão, mas hoje elas reapareceram, elas se restabeleceram. Então é importante a gente entender como que é essa estrutura de poder. Nós temos grande poder em corporações hoje?
Sim, nós temos. Mas não são corporações integradas, em que quando você olha você consegue ver múltiplos pontos de quebra, em que você consegue ver, vamos dizer assim, inúmeros negócios diferentes, você tem alto grau de especialização e hoje o controle está em entidades mais abstratas, em grupos de holdings e coisas do gênero que em nada se assemelham em termos de organização e estrutura com essas sociedades gerenciais que são estudadas pelo autor. E agora uma pergunta geral, tem outros trechos do livro do professor Richard Langlois que você gostaria de comentar, chamar a atenção da gente, professor? Um trecho que eu acho que é importante destacar é exatamente essa relação entre o mercado de capitais e a sociedade gerencial. Então, veja, o papel do mercado de capitais é financiar a atividade econômica. Quando eu vou colocar dinheiro dentro da empresa, como contrapartida ao meu investimento, eu exijo ou direitos patrimoniais apenas, ou, em regra, direitos políticos também.
Então quando você começa a ter estruturas como fundos de private equity, por exemplo, que detectam que você tem um escritório central, uma administração que é autônoma, que é o cérebro da organização, eles começam a dizer, não, não é assim, eu quero ter assentos no conselho de administração, eu quero ter o poder de indicar quem são esses administradores. Então você começa a ter uma fenomenologia do poder de controle diferente. Então, muitas vezes nos cursos introdutórios de direitos societários, a gente ouve falar de controle gerencial, como sendo aquele que está relacionado apenas a companhias de capital pulverizado. Sim, é verdade. Mas só que geralmente a gente não discute. Mas será que ainda hoje essa estrutura de propriedade é pulverizada? Será que ainda hoje esse controle é puramente gerencial? Será que necessariamente é assim que acontece? Então, eu acho que é uma forma de a gente ler esse livro e ter essa discussão aqui, é uma forma de a gente tentar conectar esses pontos, essa lacuna histórica, para a gente saber, olha, na verdade, sim, esse era um fenômeno de sociedade gerencial num determinado período do século XX, mas você começou a ter um processo de consolidação dos racionistas, é diferente, vamos dizer assim, essa fenomenologia do poder de controle nas companhias norte-americanas do que acontece no Brasil, por exemplo.
Acho que até a gente pode traçar um paralelo aqui, o federalismo norte-americano, o federalismo brasileiro centrípeto, centrífugo, e da mesma forma o poder de controle no Brasil. A gente pode dizer que a sociedade começa com poucos acionistas, sociedades familiares e aí abrem o capital, Então você tem uma fragmentação que a gente pode chamar de centrífuga. E lá nos Estados Unidos o que você tinha, pelo menos durante um período, um controle pulverizado, ele acaba se concentrando, ele vira um controle centrípeto. Então eu diria que o mercado de capitais entra nisso exatamente no que diz respeito a uma exigência de governança corporativa para poder, então, financiar essas empresas. Agora, se a empresa é muito forte em face do mercado, a estrutura gerencial é irresistente. Agora, se o mercado é mais forte e ele começa a exigir essa estrutura de governança diferenciada, a empresa tem que ceder. Então, esse colapso, essa evanescência da sociedade gerencial e a sua relação com o desenvolvimento do mercado de capitais, eu acho que talvez é um dos pontos mais interessantes dessa leitura que eu gostaria de destacar.
Agora uma pergunta específica da décima temporada, diferente das anteriores. Então, conta para a gente uma habilidade não jurídica que você tem. Uma que seja interessante, uma que seja engraçada. E claro, se você quiser compartilhar outros podcasts ou autores de literatura não jurídicos também, conta para a gente. No que diz respeito a habilidades não jurídicas, eu acho que eu gostaria de destacar, Eu sou formado em engenharia de computação, então eu gosto sempre de matemática, programação, e aí mais recentemente, com essa revolução da inteligência artificial generativa, eu tenho dedicado uma boa parte do meu tempo realmente ao uso dessas tecnologias para facilitar a leitura, para facilitar resumos, para gerar minutas de peças e coisas do gênero. Então eu acho que hoje a gente poderia brincar que é uma habilidade não jurídica, mas que no futuro vai ser uma habilidade transversal igual você ter familiaridade com o computador você ter familiaridade com o Excel você saber usar e-mail, saber usar celular são coisas que hoje a gente considera naturais mas que algum dia a gente teve que aprender então definitivamente eu acho que a profissão jurídica ela vai mudar muito nos próximos anos e assim, a gente tem que incorporar isso ao nosso dia a dia Muitos trabalhos vão ser automatizados, mas não só, algumas pesquisas, o modo como a gente faz dissertação, como a gente escreve monografias, definitivamente isso vai mudar muito.
E eu não estou falando aqui de a gente usar a IA para substituir o nosso trabalho, mas sim da inteligência social ser utilizada para potencializar o nosso trabalho. Eu não acredito muito no advogado robô, eu acredito no advogado ciborgue, que é exatamente um misto do nosso intelecto, da nossa capacidade de fazer perguntas, de montar quebra-cabeças, junto com, obviamente, a capacidade de processamento, de levantamento de fontes típica dos computadores. Então eu recomendo vivamente que quem estiver ouvindo esse podcast, além obviamente dos estudos jurídicos, separe realmente um tempo, porque para mim o direito é uma tecnologia da informação. A gente manipula a linguagem, é uma ciência social aplicada porque envolve seres humanos, envolve diálogo com seres humanos, envolve persuasão, envolve negociação, realização de concessões e entender em sentidos econômicos. Como a economia é uma ciência social aplicada, mas ao mesmo tempo também é uma tecnologia da informação, porque a gente utiliza precedentes, livros, raciocínio lógico para poder construir a nossa argumentação. Então, é uma combinação de uma ciência social, de uma ciência econômica e de uma tecnologia da informação.
Então, por isso, eu encorajo todos os que estiverem ouvindo também a investir um certo tempo em habilidades não jurídicas e em tecnologia da informação. E eu queria concluir, então, agradecendo demais a sua atenção, a paciência dos ouvintes. E me coloco à disposição, me adicionem no LinkedIn. Meu nome é Isaac Costa, I-S-A-C Costa, das redes. E a gente vai se falando aí e vai se encontrando. Professora, foi um prazer e até a próxima. Professor Isaac, muitíssimo obrigada pela sua participação aqui no podcast. Uma alegria enorme poder te receber. Até a próxima. A nossa xícara de café com leite foi devidamente tomada. Me diz então, esse episódio foi útil para você? Ajudou na sua vida de algum modo? Se sim, vai lá no Instagram, no YouTube, no LinkedIn e comenta comigo. Até o próximo episódio!