Coase, big techs e o sonho de Lênin - Economia digital, ao mesmo tempo pulverizada e concentrada, coloca em xeque paradigmas normativos herdados da era industrial
#281: NUNES, Marcelo Guedes. Coase, big techs e o sonho de Lênin - Economia digital, ao mesmo tempo pulverizada e concentrada, coloca em xeque paradigmas normativos herdados da era industrial.
2026 281Sobre o episódio
A nossa xícara de café com leite de Direito Empresarial de hoje vai tratar sobre o artigo “Coase, big techs e o sonho de Lênin” de Marcelo Guedes. E para isso teremos a alegria de contar com a participação do próprio autor para comentá-lo.
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Direito Empresarial Café com Leite. Um gole de conhecimento jurídico na sua rotina. Olá, eu sou Amanda Athayde, professora da Universidade Brasília, UNB, e advogada e parecerista no Pinheiro Neto Advogados. Sou mineira da UFMG Cruzerense na origem, com passagem em São Paulo, no Larco São Francisco, USP, e Candanga Fluminense, UNB de coração. Sou casada, mãe do Pedro de 7 anos. Oi, meu nome é Pedro, eu gosto de Capitão de Subassa e do meu malbato favorito 4, de futebol muito e sou bem rapa. Do Lucas, de 6 anos. Do Lucas é Thaíde, gosto de futebol, também gosto de ver TV, jogar videogame. E tutora do Farofa, nosso vira-lata e membro oficial da família. O Direito Empresarial Café com Leite é aquele podcast que te acompanha indo ou voltando do trabalho, tomando um café ou chá ou até mesmo fazendo seus exercícios diários. Prepare então a sua xícara de café com leite ou chá e vem comigo para mais um gole de café com leite em Direito Empresarial.
A nossa xícara de café com leite de Direito Empresarial de hoje vai tratar de um artigo intitulado COS, Big Techs e o Sonho de Lênin, de autoria de Marcelo Guedes Nunes. E para isso a gente vai ter a alegria de contar com a participação, mais uma vez, do professor Marcelo para comentar o seu artigo. Vocês já conhecem, o professor Marcelo já veio aqui inúmeras vezes. Ele é doutor, mestre, professor de Direito Comercial da Faculdade de Direito da PUC-SP, é coordenador responsável pela pesquisa que fundamentou parecer da Corregedoria de Justiça do TJ-SP, é diretor, presidente e associado fundador da Associação Brasileira de Juremetria, ABJ, é membro da Society of Empirical Legal Studies e membro representante brasileiro na reunião de fundação da Global Society of Empirical Legal Studies. Então, professor Marcelo, é uma alegria enorme ter você aqui mais uma vez para participar do nosso podcast e apresentar de um modo simples, curto e gostoso esse tema das Big Stacks e as relações com as teorias de Coase e de Lambe. Tudo bem, Amanda? Muito obrigado pelo convite.
É um prazer estar aqui com você novamente nesse seu podcast espetacular. A honra é toda minha. Professor Marcelo, vamos começar aqui entendendo o que são duas teorias que você traz no seu artigo. A teoria dos custos de transação, a teoria dos custos de agência que foram formuladas por COS. E explica para a gente, na sua visão, como que esses conceitos ajudam a compreender o surgimento e o crescimento das empresas de plataforma digital, por exemplo, numa economia contemporânea. Mostra para a gente aqui, os nossos ouvintes, como que você faz essa correlação. Então, Amanda, os conceitos de custo de transação e custo de agência, eles são do Ronald Coase, do economista, ganhador do Prêmio Nobel. Tenho conhecido o paper dele, de todos nós, traduzido como A Natureza da Firma, acho que A Natureza da Empresa, de 1937, onde ele desenvolve esses dois conceitos, que são conceitos fundamentais para entender o funcionamento da economia. Essas duas ideias são desenvolvidas em um contexto em que você tinha uma discussão sobre forças de mercado versus planificação.
E a pergunta que o Kose faz é uma pergunta muito interessante. Ele fala, mas se o mercado é tão perfeito em termos de competição, por que existem empresas? E ele via as empresas como pequenas economias planificadas. Eram ilhas de planejamento dentro de um oceano de mercado, vamos dizer assim, de trocas voluntárias. Porque dentro da empresa você tem um comando central que, obviamente, tem um planejamento, um business plan, anualizar, bianual, plurianual, com contratos de longo prazo em que os valores são prefixados. É fixado, o valor do salário é pré-fixado, ele compra e adquire estoque de maneira também planificada e não poderia ser diferente, ele tem um plano para a empresa dele. A pergunta dele é, por que existem empresas, por que todo mundo não contrata livremente, sem necessariamente ter essas ilhas de planejamento? E aí ele chega na ideia de custo de transação, que pode ser explicado numa metáfora como uma espécie de atrito do mercado. Quer dizer, para você fazer o mercado funcionar, para você negociar livremente no mercado, você tem um custo, o custo transacional, um custo em que você é obrigado a incorrer. Então você precisa negociar, você precisa contratar advogados, você precisa cotar preços, você precisa pesquisar. E dentro desse contexto, então, quando esses custos transacionais ficam muito caros, o que o Coase coloca, ele fala, é mais barato, eventualmente, eu internalizar essas relações dentro de uma estrutura de planejamento chamada empresa.
Então, quer dizer, eu, por exemplo, tenho um escritório de advocacia. Ao invés de, a cada novo caso que entra no meu escritório, eu fazer uma cotação de mercado e contratar no mercado spot, vamos dizer assim, um advogado para atuar naquele caso para mim, o que eu faço? Eu antecipo a contratação de um time, fixo um salário para o ano com bonificação e planejo. Eu estimo que eu vou ter uma demanda, eu contrato um grupo de advogados que vai dar conta dessa demanda de maneira planejada e, na minha visão, quer dizer, mais barata do que se eu tivesse que contratar esses mesmos advogados no mercado spot e gastar dinheiro, os custos transacionais, negociando a cada novo caso. Então ele chega numa conclusão bem curiosa que ele fala o seguinte, ele fala, olha, no final as empresas vão crescer até o limite em que o custo interno, que ele chama de agência, de administrar a empresa, o custo marginal de agência, se iguala ao custo de você fazer um contrato no mercado externo adicional. Ou seja, a empresa cresce até o limite em que o custo marginal de agência dessa empresa se iguala ao custo transacional de você fazer essa contratação no mercado esporte.
Então, a partir do momento que a gente entende aqui esses dois conceitos, como que você entende possível a aplicação dessas teorias para as big techs? E como que você entende que essas empresas, o termo que você usa, transformaram-se em microestados digitais? digitais. Como que, na sua visão, a criação de uma infraestrutura privada de regulação, de controle e coordenação dos mercados digitais? O impacto que a tecnologia tem hoje nos custos transacionais e nos custos de agência é evidente. A tecnologia, seja na sua versão mais atualizada de inteligência artificial, seja nas relações de web 2 com redes sociais ou de web 3 com o DeFi, transações descentralizadas, ela é um fator de enorme corte de custos. E isso tem dois efeitos. Num primeiro momento, quando cai o custo transacional, fica mais fácil você montar uma empresa e sair pelo mercado transacionando. Então o que a gente vê é uma explosão de registros empresariais no país. Então aquele fotógrafo, por exemplo, que no passado ele só poderia trabalhar num jornal, ou numa agência de publicidade, ou numa agência de fotografia, ele teria que ser internalizado como empregar dentro de uma estrutura empresarial, de uma empresa.
Ele hoje, com um capex praticamente zero, ele consegue montar uma página no Instagram, numa rede social e vender os serviços dele no mercado. Por quê? Porque todos os custos que ele teria que incorrer antes dessa tecnologia existir para poder montar a empresa dele, custos de RH para contratar pessoas, alugar um ponto comercial, distribuir as fotografias, fazer marketing. O financeiro, ele precisa controlar, emitir fatura, receber fatura, recolher impostos. Boa parte desses custos transacionais, eles foram empacotados e, vamos dizer assim, vendidos para ele a um custo inicial zero, a um CAPEX zero. Ele simplesmente abre a página dele numa rede social e ele pode operar como um empresário autônomo de maneira muito barata. Na verdade, o custo dele acaba sendo pagar 20%, 30% de toda a receita dele para essas plataformas digitais. Mas do ponto de vista de CAPEX, de desembolso, é zero ou é próximo de zero. Então o primeiro efeito que a tecnologia tem é basicamente induzir a uma explosão, um aumento brutal na quantidade de registros empresariais. E os números são muito impactantes.
A gente tem 1 milhão de limitadas sendo constituídas por ano no Brasil e 3,5 milhões de empresários individuais sendo registrados. Para a margem de comparação, a gente tem só 1 milhão e meio de empregos formais com carteira assinada sendo criados no Brasil. Então, do lado empresarial, você tem 4 milhões e meio de empresas sendo registradas por ano. E do lado trabalhista, você tem 1 milhão e meio de empregos registrados aparecendo. Essa diferença projetada no tempo, ela indica que por volta de 2045, o Brasil vai ter mais empresários do que trabalhadores. Só que isso tem um outro efeito, que é a criação dessas megacorporações, que a gente chama de Magnificent Seven, que são essas empresas que são nações digitais. Então todo esse mercado, todos esses empresários, eles se ligam a essas redes sociais e passam a operar a partir delas. Então você tem num app de vendas da Apple, por exemplo, ou dentro do ambiente de comercialização do Instagram, um espelho digital de todo o mercado real. Tem tudo lá dentro operando.
Você tem açougues, você tem panificadoras, você tem contadores, você tem advogados, Você tem pessoas vendendo informação, influencers. Você tem cursos de dança, cursos de esqui. Você tem tudo. É um espelho do mercado inteiro funcionando dentro de uma única empresa. No caso, meus exemplos aqui do Instagram, ou a Amazon, ou a Google. E isso induziu o surgimento dessas grandes, dessas megacorporações. E aí, à medida que a gente avança no seu artigo, professor Marcelo, você faz aí uma provocação. de que o projeto de Lenin de centralização produtiva poderia então ser reinterpretado sob a ótica de Kors como uma tentativa de internalização total dos custos de transação de mercado. Conta para a gente um pouco mais desse argumento. O Lenin, Amanda, em 1918 ele escreveu um ensaio que se chama As Tarefas Imediatas do Poder Soviético. E nele, ele defendendo a planificação e a centralização econômica da União Soviética, ele dizia o seguinte, que ele falava, olha, o objetivo geral é aprender a administrar toda a economia nacional como uma única grande empresa, como uma única oficina, nas palavras dele, uma única fábrica, com uma disciplina exemplar, com um trabalho organizado e com a aplicação das mais modernas conquistas da ciência, fecha aspas.
Isso é o que a gente chama de, e a gente aprendeu ao longo da história, da economia planificada soviética que deu desastrosamente errado nesse período, pós-revolução de 1917. Por que que deu errado? Sobre uma visão kohlsiana, deu errado por quê? Porque os custos de agência dessa grande fábrica soviética eram, na época, muito maiores do que os custos transacionais envolvidos na condução ou no funcionamento do mercado livre. Então, quando os Estados Unidos, suportando custos transacionais, entrou em conflito econômico, vamos chamar assim, com a União Soviética, suportando custos de agência, os custos transacionais foram mais baratos e a economia americana cresceu muito mais. De tal maneira que a chamada fábrica, ou grande fábrica soviética, quebrou. ela não conseguiu competir com esse conjunto de ilhas de planejamento de pequenas empresas americanas dentro de um ambiente de livre mercado. Curiosamente, o que a gente vê hoje nas Magnificent Sevens é o sonho leninista dando certo. Por quê? O impacto que as tecnologias tiveram na redução dos custos de transação também são observados nos custos de agência.
Então é muito mais barato, você precisa de muito menos gente para administrar uma empresa que tem dimensões nacionais. Então, se a gente observar, por exemplo, a NVIDIA, Ela tem, se não me engano, acho que 4,5 trilhões de market cap. É o tamanho do PIB da Alemanha. A Microsoft e a Apple têm 3 trilhões de market cap. É do tamanho do Reino Unido. Amazon e Google, 2,5 trilhões. Superam as economias italianas, canadenses. A meta com 1,9 é do tamanho do Brasil. Então, a gente está basicamente olhando para companhias que são, na verdade, nações digitais. e que, se não fosse a tecnologia, elas quebrariam do mesmo jeito que a União Soviética quebrou por excesso de custo de agência. E, então, o uso da tecnologia está, vamos dizer assim, viabilizando a realização do sonho leninista. Eu vejo o Musk, o Zuckerberg e o Bezos como tizares de grandes nações digitais que, por sua vez, conduzem economias inteiras altamente planificadas. São, vamos dizer assim, semi-planificadas.
A Apple impõe faixas de preços pré-determinadas, proíbe o desenvolvimento de redirecionamento de consumidores para sistemas de pagamento externos. A Amazon tem algoritmos que também não tabelam preço, mas ranqueiam buscadores que privilegiam ofertas mais baratas. Então você tem sistemas dentro dessas empresas, não de tabelamento de preços, mas de planificação ou de planejamento, de tal maneira que você consiga reduzir o preço e estabeleça regras dentro das quais esses micro empresários individuais consigam atuar. E não à toa, quando você pega a economia real inteira de um país, quando você pega um PIB de 3 trilhões e você converte aquilo num market cap de uma única empresa e espelha esse mercado dentro de uma realidade digital coordenada por uma única empresa que cobra 30% de comissão ou 20% de comissão, você dá para a administração dessa empresa ou para o controle dessa empresa um poder para-estatal, semi-estatal.
Não à toa, 30%, quando a gente fala de 30%, isso tem um paralelo direto com o que é a participação dos governos, dos negócios governamentais no PIB de um país. Então, não é estranho. Por exemplo, a Amazon começar a ter seu próprio programa espacial, a mesma coisa da SpaceX, enfim. Os recursos são tão grandes que eles começam a desenvolver atividades para estatais. Então agora a gente entendeu aqui um pouco dessa correlação entre Coase e Laning. E aí eu queria entender a sua provocação de concentração de poder, então, nas mãos das big techs, na sua visão. E como que essa concentração de poder traz desafios para o direito. para o direito empresarial, no que você chama dessa nova dualidade estrutural da economia digital. Quais são os desafios que emergem para o direito do trabalho e para outros ramos do direito, se você quiser e puder comentar para a gente? Os desafios não são só do direito comercial ou do direito empresarial. Eles são desafios contemporâneos geopolíticos.
E é curioso porque o direito empresarial, junto com a economia, talvez ele esteja na melhor posição para estudar esse fenômeno e acompanhar de perto esse fenômeno. Apesar do fato da gente não fazer como a gente deveria. A gente vê uma tecnocracia, uma pequena burocracia acadêmica, escrevendo extensamente sobre temas secundários, legitimidade ativa de ação, de responsabilização de controlador, desconsideração da personalidade jurídica 500 páginas você fala, gente, tem um elefante na sala do direito empresarial na verdade, na falta de um tem dois tem um elefante e um rinoceronte você tem nações digitais que estão disfarçadas de empresa com ações negociadas em bolsa às vezes mas que é um bicho novo e você tem essa fragmentação na outra ponta de empresários que estão descapitalizados, são empresários que não têm mais capital, você não precisa ter capex para ser empresário. E isso arrebenta com a dualidade clássica que a gente discute desde o século XIX entre capital e trabalho.
O capitalista é quem tem capital e o trabalhador é quem vende o seu serviço para o capitalista. Hoje em dia, os empresários não têm mais capex, eles não têm capital e trabalham, vamos dizer assim, para outros empresários que, entre aspas, exploram a atividade deles. essa questão, na verdade, talvez ela não seja nem historicamente nova eu tive em Amsterdã, algumas vezes, por diversas razões nesse último ano e meio, dois anos, eu visitei as sedes das companhias das índias orientais e ocidentais, aqui a gente tem talvez uma referência histórica interessante, algo a aprender, sobre como é que você lida com uma companhia, que na verdade é um estado-nação, que ele chega em novos territórios, como eles chegaram no Caribe ou no Oriente, com status de nação. A direção dessas empresas tinha um status diplomático, e eles faziam regra, eles tinham o exército. Então, isso talvez seja uma referência para a nossa discussão aqui. A gente tem esses dois grandes desafios. Acho que em uma escala geopolítica, o que a gente vai fazer? Como é que o Estado formal clássico do século XIX, XVIII, vai conviver com essas empresas?
Como é que regulam melhor a nossa vida? Inclusive, tem ferramentas mais efetivas para regular a nossa vida. do que as ferramentas clássicas do Estado tradicional. E segundo, nessa dualidade estrutural, como é que a gente vai... O que a gente vai fazer com esses, entre aspas, empresários, esses milhões e milhões de microempreendedores, empresas individuais, sociedades unipessoais, que não têm a proteção típica do trabalhador, uma CLT com férias, com 13º, com FGTS, com essas estruturas sociais protetivas, e ao mesmo tempo estão expostos no mercado, estão sujeitos a... Como é que eles vão se aposentar? Como é que eles vão ter acesso a direitos e garantias civis básicas? Então essa quebra de paradigma que a gente está vendo, ela é enorme. E eu acho que o direito empresarial tinha que parar para estudar isso antes de ficar com esse blá-blá-blá tecnocrático rasteiro que é incompatível, eu acho, com a missão acadêmica, política e institucional que nós deveríamos ter. como pesquisadores que vivem, estudiosos e intelectuais que atravessam uma fase da história tão interessante quanto a atual.
Segura só um pouquinho que eu já volto para a nossa conversa. Se você está aqui ouvindo o nosso podcast Direito Empresarial Café com Leite, é porque esse tema já faz parte da sua vida. Se, além disso, você pensa em se especializar em áreas como direito da concorrência, comércio internacional, compliance, anticorrupção, acordos sancionadores celebrados com o poder público por empresas ou pessoas físicas, direito empresarial, arbitragem e esportes, dá uma passada no meu site, amandataide.com.br barra cursos digitais. Lá você encontra curso de pós-graduação e outros mini-cursos, todos pensados com muito cuidado para dar aquele empurrão estratégico na sua carreira. Pronto, eu já peguei uma nova xícara de café com leite e agora vamos voltar para a nossa conversa com o convidado? E então, diante desse contexto, qual o tipo de arquitetura regulatória, na sua visão, que poderia ser adequada para equilibrar os valores de eficiência e inovação da economia digital com a preservação da justiça social, proteção de trabalhadores autônomos?
Qual seria aqui a sua proposta? O que você trouxe no artigo e como as teorias já consolidadas dos autores podem trazer influxos ou novas repercussões. Essas reformas não são simples. E eu já antecipo aqui que eu estou longe de ser a pessoa que vai trazer um pacote de medidas ou de recomendações para resolver um problema que é gigantesco. Não tem um modelo de prateleira, não é uma reforma pontual. E vou dizer mais, acho que não é uma coisa que você vai resolver, não é um problema que você vai enfrentar com uma, duas, dois projetos de lei específicos de legislações federais. Eu acho que hoje o que a gente tem, essa é uma pauta que está colocada, é avanços tecnológicos que são capazes de produzir enormes ganhos econômicos. A nossa produtividade aumentou muito, com muito menos trabalho, com muito menos capital intensivo. Então os excedentes todos que a gente precisa para viver socialmente, eles vão ser dados, eles vão ser produzidos, talvez de uma maneira muito mais fácil do que eles foram produzidos até hoje. A questão é, dentre outras, como é que você divide esse excedente quando você perde as duas grandes referências de partilha da riqueza que a gente teve ao longo da evolução capitalista até agora, que é o emprego que você tem e o capital que você investiu.
Então, assim, como é que a sociedade produz a riqueza? Como é que você divide a riqueza? Você divide de acordo com as posições de trabalho que as pessoas ocupam no mercado de trabalho de um lado e você partilha os resultados proporcionalmente ao capital que cada capitalista investiu. Hoje, as duas referências estão sendo perdidas, porque a gente tem uma sociedade capitalista, entre aspas, que produz o excedente, mas é uma sociedade que não tem as referências de emprego ou de capital para poder dividir esse excedente. Então a gente vai ter que pensar num outro critério. E isso vem sendo discutido, de novo, não na frente do direito empresarial, na nossa mediocridade acadêmica, tecnocrática, mas em outras frentes mais criativas, mais corajosas. programas de renda mínima, por exemplo, que são, do meu ponto de vista, não ideológicas, questões não ideológicas. Você tem o Milton Friedman falando de imposto de renda negativo e você tem um monte de gente na esquerda falando de auxílio estatal. Então, renda mínima, talvez renda máxima também, porque a concentração de renda que a gente vem observando ela é completamente desproporcional a qualquer critério meritocrático de competência que poderia, de uma forma política, filosófica ou econômica, justificar a diferença de vida entre as pessoas.
Hoje em dia ela está atingindo patamares, talvez, inéditos e em muitos sentidos injustificáveis. São questões muito grandes para serem enfrentadas. Eu também acho que essas corporações, essas nações digitais, elas não vão conviver pacificamente com os governos. Isso a gente já está vendo. Porque elas têm papéis supervenientes. Elas competem na regulação da vida privada. E isso vai ter que ser resolvido, de alguma forma. Como? Eu não sei se eles vão se fundir, se o governo vai se digitalizar e vai se apropriar de uma parte dessas ferramentas para poder exercer as funções deles. Difícil, né? O que é visível hoje, na minha perspectiva aqui mais sociológica do que jurídico e empresarial, é de que as atuais estruturas democráticas que a gente tem, os parlamentos com eleições diretas, com representação e eleição de representantes a cada 4, 5 anos. Esse tempo é um tempo que atendia as pessoas no século XVIII, século XIX, que não atendem no século XX e que hoje não atendem mais. Então, assim, eu vejo muito essas estruturas como carroças do século XIX, nas quais eu acho que os politólogos e os formuladores de política pública estão tentando instalar uma turbina que é rede social, inteligência artificial.
Assim, você não vai conseguir instalar uma turbina numa carroça. As duas coisas não convivem. Então você vai ter que alterar a estrutura toda para poder recombinar o que a gente vê como democracia com essas turbinas. Então essas empresas, essas grandes corporações, elas vão se adaptar aos governos e os governos vão ter que se adaptar a elas numa transformação muito radical. E isso talvez nos leve a formas alternativas de democracia. Você tem futorcacia Futocacia Aleocracia, você tem formas de Participação direta Talvez com mais frequência Você fazer votações hoje, do ponto de vista digital É muito mais barato, então você consegue consultar Com mais frequência as pessoas A respeito de assuntos que elas têm condições de opinar E isso tudo, eu acho que São alternativas que, vamos dizer assim Estão nos cardápios das nações hoje E eu acho que os grupos que souberem E que acertarem nessas mudanças de maneira mais rápida Vão ser exatamente os grupos, as comunidades ou os países que no futuro vão liderar as transformações e a evolução da sociedade no século XXI. E agora uma pergunta específica dessa nova temporada para a gente poder aproveitar esse contexto de Copa do Mundo.
Conta para a gente, então, um esporte que você tem afinidade. E se você não tem afinidade, que você já teve afinidade na infância ou algum esporte que você goste de acompanhar na TV, conta um pouquinho aí dos seus gostos esportivos para a gente conhecer um pouquinho mais aqui na pessoa física também. Ah, Amanda. Sabe que eu estava preocupado com essa pergunta? Só que como eu já respondi ela outras vezes, Falei, como é que eu me saio? Eu sou uma pessoa de mínimos talentos, se é que eu tenho algum. Então é uma pergunta que me expõe essa. Essa variação foi boa. E eu vou ser aqui bem sincero com você e eu vou começar falando de um esporte que eu não gosto, que é o futebol, especialmente no Brasil. O futebol está associado à corrupção, a gente sabe disso. O comportamento nos estádios. Quando eu vou nos jogos, eu vejo a naturalidade com que a gente trata a trapaça em campo, a simulação de falta, o comportamento das torcidas, a violência que a gente observa, ou absurda, gratuita, é um exemplo horroroso para as pessoas, principalmente para os jovens, dentro e fora de campo.
O uso do futebol para explorar as pessoas mais pobres, e que se apoiam nisso diante da falta de serviços de apoio básico, de direitos, saúde, de educação. Em troca de um circo pobre, do ponto de vista estético e de interesse, estou sendo franco aqui. Além de tudo, esses grupos conseguem vantagens tributárias, legislações específicas. Essas legislações estão institucionalizando o calote, eles quebram o tempo inteiro, não melhora. E assim, pra virar a cereja do bolo, além de tudo, agora estão se associando à exploração de jogo de azar. Então os patrocinadores vão lá e vendem, as pessoas gastando dinheiro do Bolsa Família, do auxílio estatal, perdendo no jogo. E essas empresas estão enriquecendo e usando esse dinheiro pra investir. E assim, pra quem é, não sei como é que é no caso das colegas, das mulheres, mas assim, nos grupos de WhatsApp dos homens é um assunto recorrente, chato. Que fica aparecendo o tempo inteiro, parece um vírus mental. falando em política pública, se eu pudesse eu proibia, e aí fala não Marçal, mas vai ter uma sublevação social é exatamente essa ideia, porque assim as pessoas discutem abertamente que é bom futebol no Brasil porque as pessoas não se revoltam socialmente, então aqui fica a minha sincera opinião a respeito desse esporte a nossa xícara de café com leite de direito empresarial de hoje chegou então ao fim, agora eu quero saber de você, o episódio foi útil? fez sentido pra sua vida profissional acadêmica?
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