O novo advogado
#EP50: MATTOS FILHO, A. O. O novo advogado. São Paulo - SP: CONJUR - Consultor Jurídico, 2006 (Entrevista). E AMBROSINI, Diego Rafael ; SALINAS, Natasha S. Caccia ; MATTOS FILHO, A. O. . A razão de se
Sobre o episódio
Ary Oswaldo Mattos Filho comenta sobre o ensino jurídico de direito empresarial no Brasil
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Olá, sejam bem-vindos à terceira temporada do podcast Direito Empresarial Café com Leite. É novo por aqui? Então deixa eu me apresentar. Eu sou Amanda Athayde Mineiro Norigem com Passagem São Paulo e Candanga de Coração. Casada mãe do Pedro de 4 anos, do Lucas de 2 anos e tutora do Viralata Farofa. Sou professora doutora da Universidade de Brasília, UNB, dos cursos de Direito Empresarial, Concorrência, Comércio Internacional e Compliance. E esse é um podcast idealizado e planejado para as turmas da graduação em Direito Empresarial na UNB, nas disciplinas de Direito Comercial 1. A cada aula, um novo episódio sincroniza com o tema daquele dia. Mas o podcast não se restringe mais aos meus alunos, Pois todos os ouvintes, em quaisquer lugares do Brasil e do mundo, e em qualquer posição profissional que ocupem, poderão ter, com o nosso podcast, uma biblioteca virtual, em áudio gratuito, dos principais livros, capítulos ou trechos de livros, artigos acadêmicos essenciais para a compreensão do direito empresarial no Brasil.
Eu estou muito animada para tomar a próxima xícara de café com leite com vocês. Bora comigo? a xícara de café com leite de direito empresarial de hoje vai tratar de dois artigos. O primeiro, que é uma entrevista publicada no portal Conjur, em 2006, sobre o novo advogado. E o segundo, escrito, que consiste em um prefácio intitulado Sobre a Razão de Ser da FGV, da Direito GV, publicado em 2010. ambos pelo Ari Osvaldo Matos Filho e para isso a gente vai ter a alegria de contar com a participação do professor Ari Osvaldo Matos Filho comentando esses dois artigos o professor Ari é sócio-licenciado da UAB do escritório Matos Filho que carrega então seu sobrenome até hoje sim gente, é o Matos Filho mesmo com dedicação exclusiva como professor titular sênior da Escola de Direito da FGV São Paulo. Ele é pós-doutor por Harvard, doutor em Direito Tributário pela USP, mestre em Direito Comercial pela USP, mestre em Direito em Harvard, graduado em Direito pela USP, professor fundador e primeiro diretor da FGV São Paulo. Foi presidente da CVM, membro do Conselho Monetário Nacional, membro da Comissão de Privatização e é atualmente, como eu já mencionei, professor titular sênior da FGV Direito São Paulo, hábito do Centro Brasileiro de Mediação e Arbitragem e da Câmara de Arbitragem de Mercado, associado da Academia Brasileira de Direito Tributário e associado efetivo do Instituto de Advogados de São Paulo, IASP, sendo então professor da GVI desde 1969 até hoje.
Eu fico até sem fôlego e fico muito feliz em apresentar todo esse caminho do professor Ariaswaldo Matos Filho, porque é uma honra imensa e muito grande. Fico aqui até errando as palavras de tanta ansiedade aqui. por entrevistar o senhor, professor Ari. Muito obrigada por aceitar participar do podcast aqui conosco. Muito obrigada. Obrigado a você. Para a gente começar, professor Ari, qual que foi o contexto desses dois artigos? Um sobre o perfil do novo advogado, então uma entrevista ao portal Conjur, e um outro que consiste em um prefácio a respeito da razão de ser, da Direito GV, em coautoria com Diego Rafael Ambrosini e Natasha Cássia Salinas. Como que esses dois artigos estão inseridos dentro de uma série de outras publicações feitas pelo CEO, sendo uma muito importante e muito conhecida, como, por exemplo, o livro Direito dos Valores Nobiliários?
Bom, uma é decorrente da outra. Ou seja, a partir de uma constatação, eu e vários colegas partimos da constatação de que o direito, dependendo da região do país no qual ele é praticado pelos advogados, a ênfase muda. Então, por exemplo, no Sudeste e certamente também no Sul, o direito é muito mais voltado para a atividade empresarial, além da tradicional parte do direito civil. mas a parte do direito obrigacional no sul e no sudeste aumentou muito por conta da atividade empresarial por conta de novos mecanismos do direito comercial, por conta de uma influência e de crescimento maior do mercado de capitais, por uma influência e crescimento muito acentuada do direito financeiro privado e isso não se manifesta na mesma intensidade em lugares em que a atividade agrária é mais importante, como no centro-oeste, ou como em outros lugares em que a prevalência de um ramo do direito é mais importante.
Pois bem, constatando isso, de que forma foi elaborado? Nós constatamos que, mais ou menos, há uma uniformidade de currículos, Brasil afora, independentemente da maior intensidade em um ramo do direito do que em outro. Isso é parte, por conta do currículo mínimo do MEC, mas também é parte de uma certa inércia. Nossa, professores que propomos e discutimos em congregação, a grade curricular, além daquela do MEC. Pois bem, nós constatamos, nós aqui no grupo, eu não gosto nada de plural majestático, então nós, no grupo, constatamos que, E, por exemplo, no Sudeste, o mercado do trabalho advocatício se encaminhava para uma série de conceitos e de estudos não abrangidos pelas faculdades de direito. Então, por exemplo, o direito comercial evoluiu.
Ele evoluiu e criou subgrupos, como o direito dos valores imobiliários, como a mudança da atividade de punição da atividade que lesa a natureza, como a atividade de falência concordata, que passou a ser de reorganização, a ênfase de reorganização da empresa. Ou seja, acordos comerciais, privados, que o Brasil elaborou e participa. Ou seja, uma série de novos conhecimentos que dificilmente seriam abrangidos por um currículo mais fechado, mais tradicional. Ora, isso implica, e já indo para a segunda pergunta, Isso implica em que novos métodos de ensino do direito devam ser praticados. E isso nasceu como?
Nasceu de uma pesquisa feita no início do ano 2000, qual era o recall e qual a ferramenta importante para um estudante de direito desde a graduação até o pós-doc. E uma das coisas que se verificou é que o recall, ou seja, aquilo que o aluno lembra daquilo que foi ensinado em aula, o recall mais baixo é a aula que o professor vai lendo, pega o código e vai lendo artigo por artigo e discutindo artigo por artigo. Ou seja, é um trabalho mais vocal do professor, com um aproveitamento muito baixo por parte do aluno. E se nós concordamos em que a tarefa da universidade é preparar as pessoas para a vida profissional, significa que a falta de recall se transforma em uma perda de tempo.
Em segundo ponto, isso leva a que haja uma mudança da grade curricular. A grade curricular tem que corresponder àquilo que o mercado que gera empregos vai estar pedindo. Sob pena de nós termos a formação de um grupo de jovens que não vão encontrar quase atividade prática para aquilo que eles aprenderam, ou mesmo, pior ainda, dificilmente eles vão encontrar empregabilidade. Isso levou aqui a gente para estudar quais são os métodos que causam a maior lembrança para os alunos. E, em segundo lugar, o maior recall é aquela aula participativa, de longe, em que o professor funciona muito mais como um guia da discussão, mas não aquele que dá a solução do problema. É um método socrático ou também um método dialético.
Pergunta e resposta, pergunta e resposta entre os alunos. E o professor é o mero diretor das discussões. Então, nós optávamos para começar a utilizar esse método. Agora já na criação da Escola de Direito da Direito UGB de São Paulo. E o que nós constatamos, nós, todos aqueles professores que estávamos envolvidos na criação, é que não há material didático para esse tipo de ensino, porque o grosso dos materiais produzidos entre nós no Brasil são manuais, em que repete mais ou menos aquilo que o professor vai dar aula discutindo artigo por artigo. Nós, na Direito de GV, descobrimos que inexistiam professores aptos a lecionar pelo método dialético. Nós descobrimos na Direito de GV que os alunos dos bons colégios já estavam mais acostumados a esse método, enquanto as faculdades estavam muito mais próximas do método Coimbrão de dar aula e de destruir o candidato do outro lado.
Então, criada a escola de direito, nós passamos três a quatro anos, primeiro preparando material didático, preparando professores. A Vivi foi uma das vítimas desse processo. Procurámos pegar professores que tivessem passado pela experiência de aulas participativas no exterior, seguindo a recomendação do MEC, só podia ser professor com mestrado pronto e encaminhado para um doutorado. passamos também a contar com a colaboração de professores no exterior, não só nos Estados Unidos, porque hoje em dia o ensino do direito na Europa, na Europa Ocidental, ela é também participativa. Aí partimos para o segundo, terceiro ponto. Mudamos o método, vamos fazer material didático para isso, e o terceiro ponto.
A faculdade de direito não pode disputar espaço com o emprego do estagiário, quer seja em escritório de advocacia, quer seja em empresa. Isso era um ponto que para mim era muito nítido por experiência pessoal. Quando a gente recebe no escritório um estagiário, a tendência do escritório, qualquer escritório ou qualquer empresa, é tirar o máximo daquele estagiário, o que impede o aproveitamento escolar. Então, partimos para que nos três primeiros anos de faculdade, fosse tempo integral e dedicação exclusiva. Isso tem funcionado razoavelmente bem e serviu de paradigma para o ISPER, que criou uma escola de direito e levou isso até o tempo integral, até o quarto ano da faculdade. Ou seja, o aluno só tem o último ano, o quinto ano, para estagiar.
A partir disso, fizemos na Direito GB, que depois foi ampliado para outras faculdades, convênios com faculdades no exterior. Por quê? Para dar uma ideia do direito mais universal, mais social, não no sentido de socialite, mas mais social de integração do aluno com outras comunidades de outros países. estimulamos a vinda de professores do exterior para fazer cursos curtos de uma semana, duas semanas sobre assuntos especificados dados em inglês porque quer gostemos, quer não gostemos mesmo na Europa ocidental as faculdades estão dando cada vez mais cursos inglês. Até Sorbonne dá cursos em inglês.
Que é o texto do francofonio. Para isso, nós passamos a mudar o vestibular. De que forma? Primeiro, qual é o nível de conhecimento prévio que o aluno traz do colegial? Colegial, na minha linguagem, no meu tempo, que seria útil para ser advogado, ou para ser juiz, ou para ser promotor, ou para seguir carreira delegada de polícia. História é conhecimento geral, geografia é conhecimento geral. E assim fomos desbastando essas matérias que seriam imprescindíveis e chegávamos à conclusão que o advogado, Ele precisa saber, fundamentalmente, antes de entrar na faculdade, muito bem, português. E na medida que nós nos encaminhávamos para receber professores do exterior, cuja língua universal é o inglês, nós nos encaminhávamos para estabelecer estágios semestral ou anual dos nossos alunos em faculdades do exterior, valendo crédito para nós.
O aluno precisaria saber inglês. Partindo da premissa que as metodologias de ensino participativas, boa parte delas é escrita em inglês, ou seja, nos conduziu a que o inglês fosse numa ponderação menor que o português, mas fosse também algo exigido. principalmente porque se o formado vai trabalhar em escritórios ou em empresas brasileiras ou fundamentalmente em empresas do exterior, quer nas empresas nacionais que negociam com o exterior, quer nas empresas internacionais, ele vai precisar saber de contratos em inglês. Pois bem, todas essas modificações nos levaram à construção de um paradigma novo. E esse paradigma não tinha material didático, não tinha professor, não tinha nada pronto aqui. Por quê? Porque nós estamos muito mais acostumados à aula do professor falando e o aluno, de vez em quando, se o professor permitisse, levantar a mão e fazer uma pergunta.
Isso levava a quê? Como levou a mim mesmo. Em determinados dias, quando eu acordava mais cansado, por qualquer motivo, sentar no fundo da classe, botar um óculos escuro e dormir. Que é um negócio muito ruim, porque é uma feira de tempo. É tempo perdido para o professor e é tempo perdido para o aluno. Aí começou a nascer a ideia da Direito GV. Foi uma ideia concebida por vários professores, Oscar Vilhena, Carlos Alisson Fels, vários nós fomos construindo como seria essa faculdade. E aí, uma vez criada a faculdade, eu fui designado diretor, fiquei 11 anos e hoje tenho a felicidade de já ter passado quase isso para o Oscar Vilhena, esse encargo.
Ou seja, as duas perguntas se conjuminam. da necessidade da criação de um tipo distinto de advogado. Não que o bacharel tradicional tenha perdido seu lugar, mas criou-se um lugar para um bacharel distinto daquele mais tradicional. E isso levou à criação de uma escola de direito. No começo, apanharmos muito de todas as faculdades de direito, Ou seja, éramos considerados um estranho no Ninho, certo? Um tipo de pessoa que se rendeu ao mundo do exterior, mas hoje em dia já tem uma aceitação melhor, inclusive começam a surgir outras escolas ou faculdades de direito seguindo a mesma trilha como foi o caso do Isper, aqui em São Paulo também. Interessantíssimo a gente entender essa gênese, primeiro por essa constatação de que os professores não estão prontos necessariamente, e que a gente precisa trabalhar constantemente.
Então, a gente normalmente se torna especialista em temas, E a pressuposição é que, uma vez que você é especialista em um tema, vai ser capaz de apresentar que ele tem uma quantidade com capacidade de integrar os alunos, mas não necessariamente. Esse treinamento é super importante. Você levantou um ponto importante. Porque o direito, tradicionalmente, é apresentado nas faculdades em caixinhas estanques. Só que essas caixinhas distantes não existem na realidade Quem vai trabalhar vai descobrir no início com um grande pesar Que a facilidade das caixinhas deixa de existir Então, por exemplo, para ficar na nossa área Você, por exemplo, tem no direito civil Direito das obrigações, que é fundamental na área empresarial Não existe área empresarial sem direito das obrigações.
Você vai descobrir que o advogado que mexe na área empresarial não pode ser jejum em direito tributário de pessoa jurídica. E vai por aí afora. Então, uma das grandes coisas, um dos grandes méritos que a aula participativa gera é desconstruir as caixinhas ainda junto do curso de graduação. Por quê? Porque numa discussão de um caso concreto, numa decisão judicial ou de construção de um caso abstrato, o aluno vai ter que pular de conhecimento para conhecimento independentemente de ele estar dentro da caixinha ou fora da caixinha. A caixinha passa a ser alguma coisa absolutamente irrelevante. E é justamente nessa dialética que surgem as grandes ideias, né? Os que a gente chama as sacadas ou os insights, né? Então, muitas vezes, com uma pergunta em sala de aula, eu sempre falo isso, que como professor a gente recebe muitas perguntas interessantes que fazem a gente refletir e falar, nossa, mas esse ponto de vista aqui é muito bom.
E daí a turma da graduação, né? que vem com perguntas que podem inicialmente ser vistas como disruptivas, elas vão trazer muitas vezes os melhores insights. E essa metodologia ativa, eu acho que é uma... É claro que é sempre um treinamento constante, esse mundo virtual, ele trouxe uma série de dificuldades nessa metodologia ativa, tendo em vista câmeras fechadas e tudo mais, mas demonstrou a necessidade nossa de aperfeiçoamento constante e de nos redescobrirmos outras habilidades para poder trazer essa dialética para dentro da sala de aula e no presencial, agora retomando as aulas também, a gente reforçar essa importância. mas acho que o mais interessante disso é essa parte do treinamento para essa metodologia, porque isso não é tipicamente ensinado a nós professores, então é um processo individual de cada um de nós professores de tentar ser, aprimorar e ser um dos melhores professores que o nosso aluno.
É, porque o professor brasileiro, normalmente, ele tem mania de responder. Quando a função no método dialético não é responder, mas é fazer os alunos pensarem, inclusive provocando discussão entre eles mesmos. Então, o primeiro ponto de um professor que não passou por um treinamento para poder aplicar um método socrático é a autocontenção. Ou seja, ele não sabe nada, ele é um mero difusor de organização na discussão entre os alunos. Faz pergunta, ele não dá respostas. Então esse é um drama muito pesado para o professor que é formado somente em direito aqui no Brasil, porque a tendência nossa é atropelar o aluno e responder. Isso é muito interessante, porque a gente vai pegando experiências do exterior e vai vendo as experiências no Brasil.
e eu me lembro, se o senhor mencionou a Sorbonne, eu tive os dois tipos de aula lá, tanto a aula em inglês com o método mais participativo quanto o método de aula para 200 pessoas num auditório e a professora chegava e tinha um roteiro de aula e falava durante uma hora e meia e a gente amotando, tentando entender, tanto os franceses quanto nós estrangeiros tentando entender o que ela estava falando para poder anotar. E eu lembro, no final da aula, eu falo sempre que eu... Eu falo, gente, eu sempre... Você pode manter uma pessoa tranquila, você pode ser uma pessoa tranquila, mas você pode buscar a humilhação. E aí eu falava, eu vou lá buscar a humilhação, falar com a professora e tal. Eu falava, professora, mas... E tal coisa, tal coisa, tal coisa. Ela sempre respondia com... Ou não. Não gostava dessas duas palavras. Eu falava, gente, mas... Não entendi esse ponto, né? Será que você pode me ajudar a raciocinar?
Não, não tinha, era um método muito estanque, né? Então, essas experiências que a gente tem enquanto aluno, acho que acabam também moldando o tipo de professor que a gente quer ser, né? Tem um outro ponto que a gente vai conversando, eu vou lembrando que foi importante na criação da Direito de GV em São Paulo. A existência de professores de tempo integral e dedicação exclusiva. Ou seja, eu estudei aqui em São Paulo, na USP, e estudei nos Estados Unidos. A diferença é da água para o vinho. Quer dizer, aqui em São Paulo, não sei se mudou hoje em dia, o professor chega no horário de começar a aula, quando não atrasa. dá aquela aula monotemática sem muita emoção toca o sino, acabou a aula ele vai tomar um cafezinho na sala dos professores e volta para onde? Para o escritório ou seja, assim como para o aluno nos cursos de direito do tempo parcial Assim como para o aluno o estágio é mais importante que a faculdade, assim como para o professor que a divulga intensamente, o escritório é muito mais importante do que a faculdade.
A faculdade é um label, um nome que ele agrega à sua personalidade. Então, a criação de uma carreira paralela de professor de estômago integral ela é importante porque os professores têm que destinar durante a semana determinados dias e horários para atender os alunos. E aí essa resposta de oui ou non não existe, porque aí é um diálogo tete a tete entre aluno e professor. Ele perde aquele vestimento de majestade inatingível. E também dá para o aluno um conforto. Obviamente, determinadas matérias, não necessariamente precisam de professores de tempo integral, mas precisam de professores que conheçam a realidade, ou seja, aqueles professores que vão ensinar as crianças como a raposa tira a galinha do galinheiro sem fazer muito barulho.
Ou seja, foram uma série de inovações que eu não criei nada. Eu apenas vi o que acontecia em outros lugares, levantei estatísticas de aproveitamento dos alunos e, além disso, a criação do tempo integral nos três primeiros anos permitiu um aproveitamento com o ensino de novas matérias que são fundamentais para o advogado que vai trabalhar num ambiente como o do Sudeste, aulas como contabilidade, análise de balanço, inglês jurídico, etc, etc, etc, etc. Ou seja, nos permitiu muito mais mobilidade, plasticidade para a criação de algo novo. Interessantíssimo, isso reflete, essa parte acadêmica certamente acaba refletindo na atuação profissional dos alunos e nossa também, enquanto professores, e partindo para essa segunda faceta e consequentemente o segundo artigo. Na parte profissional, nessa visão do novo advogado que foi objeto do artigo, qual que é a visão do senhor a respeito dos profissionais ou da forma de atuação ou capacitação e atuação desses advogados que atuam especificamente no ramo do direito empresarial?
Quais as novas necessidades que são trazidas pela realidade e que precisam ser aprimoradas também? Olha, isso esteve, está presente desde o primeiro dia da ideia da criação da escola de direito. Existem duas posturas e nós optávamos por uma que até então quase não existia. Existe aquela postura em que a faculdade sabe tudo que é importante, ensina para o aluno tudo aquilo que ela acha que é importante e joga no mercado. Nós partimos na escola de direito, antes da criação da escola de direito ainda, partimos por uma postura completamente diferente e que na altura foi muito criticada pelas outras faculdades de direito. Nós fizemos uma pesquisa de mercado.
Pesquisa de mercado para saber o quê? Pesquisarmos entre profissionais liberais, empresas de setor financeiro, que é um grande empregador, de comércio, prestação de serviços, etc. sobre que tipo de advogado eles acham que eles gostariam de ter e não estão tendo. Ou seja, foi uma pesquisa crítica ao sistema. E a crítica nunca... o ser crítico nunca me afastou. Porque se eu tivesse medo de crítica, eu não teria feito o que eu fiz. Pois bem, esse levantamento mostrou que São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro gostariam de que, como é que esse advogado fosse feito. Há diferenças, inclusive, entre o advogado do Rio de Janeiro e o advogado de São Paulo.
O Rio de Janeiro é muito mais voltado para uma atividade de direito público. São Paulo é mais voltado para uma atividade de direito privado. Assim como em Brasília, se fizer um levantamento, eu acho que vai dar muito mais direito público e direito privado naquelas áreas em que o direito público atua. Empresas de economia mista, etc. Esse levantamento nos deu uma luz. E a partir daí nós começamos a montagem. Ou seja, nós nunca sentimos a menor vergonha de consultar o mercado. E sentimos grande rejeição, todos nós professores, sentimos grande rejeição em soltar o aluno do jeito que a gente pensava que seria o melhor para ele. Obviamente, não se pode só levar o mercado em consideração, mas também não pode ser formado um aluno que seja um perito em filosofia do direito e que onde é que ele vai trabalhar?
Ele quer trabalhar, ele quer ganhar dinheiro, ele quer construir família, ele quer educar os filhos dele. Ou seja, enfim, querer ignorar o chamado vil metal ou a empregabilidade, no meu modo de ver, é errado. E aí, nos escritórios, da sua experiência no Matri, os alunos chegam prontos? Chegando lá, qual que é o aporte que a vida profissional e a partir aí do quarto ano, ou de que modo que a vida profissional vai moldando também as novas experiências acadêmicas, mestrado, doutorado, pós-doutorado, como que a vida profissional, qual a relevância da vida profissional para a vida acadêmica também nessa atuação no direito comercial? Aí nós partimos para um outro tipo de arranjo. Começamos a estabelecer cursos para os nossos alunos de direito que tivessem um bom desempenho, possibilidade de fazer créditos na escola de administração de empresas ou na escola de economia.
Isso teve um subproduto extremamente importante porque numa atividade profissional, o advogado não trabalha sozinho, principalmente numa atividade empresarial. O advogado vai trabalhar junto com o administrador de empresa, ele tem que saber um mínimo de linguagem de administração de empresa para poder se comunicar, inclusive, com o cliente dele, que é o dono da empresa, sob pena de transformar, ignorando todas essas matérias, o advogado ficar transformado num mero escriba, em que o dono da empresa, o administrador, o banco de investimento, elaboram tudo, aí o dono da empresa fala, escreva. O que é uma posição ridícula e que não condiz com a realidade do ensino que o advogado deve ter. Como é que você mede isso? Nós também partimos para medir. Nós achamos até hoje na escola que é um processo humilhante do estagiar, do pedido de estágio.
Ou seja, sai o coitado do aluno ou da aluna distribuindo o currículo como se fosse panfleto distribuído aí no centro comercial de Brasília, na rua. Não é isso. O aluno tem muito mais dignidade do que desse processo. Então, mais uma vez, nós copiamos a job fair, que nos Estados Unidos e na Europa existe para quando o aluno está terminando a faculdade, para encontrar emprego, ele escolhe, ele e os empregadores se entrevistam mutuamente e o aluno escolhe onde é que ele quer trabalhar. Nós criamos isso para estágio. E o primeiro resultado foi excepcional. nós passamos a ter sete, oito pedidos de estágios por estagiário. Ou seja, deu dignidade para aquele sujeito. Então, é um sujeito que aprendeu sobre uma metodologia diferente, participativa, é um sujeito que contou com professores tempo integral e professores não tempo integral, dependendo da área.
É um sujeito que pode participar, se quiser, de semestre em outra faculdade de direito no exterior, valendo crédito. É um sujeito que participa de uma feira de estágios, em pé de igualdade, ou até como a oferta de estágios é maior do que a oferta de estagiários, ele participa num processo e numa situação superior à dos contratantes. Ou seja, acho que deu uma mudada. A feira de estágios hoje em dia é um negócio comum. Depois foi copiado por todo mundo, o que eu acho excepcional. Interessantíssimo esse processo de adaptação, vamos dizer, da vida profissional do aluno para a vida acadêmica, incendido na vida acadêmica. E para a gente caminhar aqui mais para o final, uma pergunta que eu adicionei agora na terceira temporada, para a gente tentar, quando a gente vê o currículo, a trajetória do senhor, a gente vê todos os títulos, toda a caminhada profissional, todas as conquistas, e a gente fica pensando, será que teve algum tropeço?
Será que teve alguma coisa que não aconteceu conforme planejado? porque isso certamente passa na cabeça dos alunos e fica pensando, nossa, não consegui determinada coisa que eu queria muito, isso vai ser definidor da vida. Será que o senhor podia compartilhar algo que aconteceu na trajetória do senhor que não funcionou, mas que depois teve algum resultado que pode ajudar os alunos e os nossos ouvintes a entenderem Como que isso pode ter ajudado o senhor no estudo ou no trabalho em direito empresarial? Imaginar que você queira fazer coisas que não aconteçam, imaginar que isso exista, ou seja, tudo que você quer, você faz, não existe nem um sujeito que seja predestinado. Obviamente não existe. Por exemplo, a minha participação na vida pública durante três anos, quer na Comissão de Valores Imobiliários, quer na Comissão de Reforma Fiscal, você quer uma coisa, as pessoas não querem.
Por exemplo, se você pegar as propostas de reforma fiscal, você tem sempre três polos opostos que se contradizem. A pessoa física vai dizer, eu concordo com o aumento de imposto desde que caia sobre o meu vizinho. Para mim, não. Para mim, eu quero imposto zero. Se você perguntar para o ente tributante, ele vai falar, não, é muito pouco, é preciso de mais, muito mais dinheiro vindo dos tributos. porque a minha tarefa é nobre. E se você vai consultar aqueles que formam o orçamento, ele vai dizer, não, não, quem decide para onde vai o dinheiro, se vai para a minha freguesia ou para o meu estado, sou eu, e não é o executivo. Ou seja, é um problema redondo. Agora, você tem satisfações para ficar no seu campo, por exemplo. Eu acho que uma grande coisa que eu consegui quando estava na CVM foi acabar com os títulos ao portador.
Eu já constatava antes que título ao portador é um convite à sonegação de imposto. Título ao portador é um convite à manipulação de mercado. Ou seja, tudo aquilo que é malefício está inserido no título ao portador. Tive vitórias que demoraram muito. Quando eu estava na CVM, foi aprovado o fundo imobiliário. Mas ele só veio a sair efetivamente vários anos depois. E outra satisfação, o fundo imobiliário foi semente para uma série de fundos de investimento que existem hoje. tanto que o grande e de longe maior volume de investimentos no mercado de valores imobiliários é de fundos. Em segundo lugar é de renda fixa. E em terceiro lugar, lanterninha, renda variável. Ou seja, existem coisas que você queira fazer, que você consegue, existem coisas que você queira fazer que você não consegue, A burocracia é um negócio que te segura como visgo de pé de passarinho.
Você não consegue se mexer, você não sabe onde é que está o entrave daquilo, mas você tem coisas que você consegue fazer. E aí você tem que pegar aquela ideia, botar debaixo do braço e começar a falar com a autoridade mais baixa daquela hierarquia. Porque se você botar isso na mão do mais alto na hierarquia e o de baixo der um não, não anda aquele negócio. Ou seja, gastar a sola de sapato é a humildade que as coisas tendentemente vão andar. Super interessante. É bem a realidade mesmo. E para a gente concluir, quem que o senhor gostaria de ouvir aqui? quem que o senhor fala, olha, eu gostaria de parar aqui durante meia hora, uma hora para ouvir essa pessoa. Lembrando que a gente já entrevistou uma série de professores da GV São Paulo, professora Mariana Pargendla, figurinha carimbada, professor Bruno Salama já participou também aqui de episódio, professora Lier, professora Viviane.
Então a gente já tem aí uma série de professores, a gente pode convidar outros professores ou os mesmos professores a respeito de artigos, capítulos ou livros específicos. Quem que o senhor gostaria de ouvir? Bom, de todas as suas indagações, para mim essa é a mais difícil, porque aos 82 anos, muitos dos meus mestres já não estão mais aqui. aqueles que eu gostaria de ouvir já partiram por um recanto mais sossegado da vida. Mas a gente pode ouvir alguém comentando eles, então se o senhor quiser recomendar alguém que tenha escrito algo que marcou, e a gente chama algum professor para comentar. Eu acho que podia chamar alguém para comentar o professor Silvio Marcondes da USP. E foi excepcional, professor. Está notadíssimo. A gente já teve um episódio comentando um artigo do professor Silvio Marcondes, então vamos pegar outros textos do professor Silvio Marcondes para comentar.
Eu acho ele. Para mim foi um professor excepcional. Sim. Então acho que com isso a gente conclui aqui a nossa conversa. queria agradecer, professor pela sua presença uma alegria conhecê-lo e poder ter essa visão da construção de uma metodologia de ensino e de uma carreira profissional voltada para esse ramo do direito dos negócios em especial então foi uma xícara de café muito gostosa, tomada por nós, espero que assim tenha sido também para os nossos ouvintes e espero que até a próxima. Até a próxima, obrigado.