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Direito Empresarial Café com Leite

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#65 · 46 min

The company: a short story of a revolutionary idea

Paulo Cezar Aragão

Obra de: John Micklethwait, Adrian Wooldridge

#EP65: MICKLETHWAIT, John. WOOLDRIDGE, Adrian. The company: a short story of a revolutionary idea.

Ouça ou assista aqui mesmo:

Sobre o episódio

Paulo Aragão comenta sobre a história da criação das sociedades

Transcrição

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Sejam bem-vindos à terceira temporada do podcast Direito Empresarial Café com Leite. É novo por aqui? Então deixa eu me apresentar. Eu sou Amanda Athayde Mineiro Norigem com passagem São Paulo e Candanga de coração. Casada mãe do Pedro de 4 anos, do Lucas de 2 anos, e tutora do Viralata Farofa. Sou professora doutora da Universidade de Brasília, UNB, dos cursos de Direito Empresarial, Concorrência, Comércio Internacional e Compliance. E esse é um podcast idealizado e planejado para as turmas da graduação em Direito Empresarial na UNB, nas disciplinas de Direito Comercial 1. A cada aula, um novo episódio sincroniza com o tema daquele dia. Mas o podcast não se restringe mais aos meus alunos, Pois todos os ouvintes, em quaisquer lugares do Brasil e do mundo, e em qualquer posição profissional que ocupem, poderão ter, com o nosso podcast, uma biblioteca virtual, em áudio gratuita, dos principais livros, capítulos ou trechos de livros, artigos acadêmicos essenciais para a compreensão do direito empresarial no Brasil.

Eu estou muito animada para tomar a próxima xícara de café com leite com vocês. Bora comigo? A xícara de café com leite de direito empresarial de hoje vai tratar de um livro escrito por dois autores que eu já devo dizer que a gente tem uma dificuldade de pronunciar os sobrenomes. São os autores John McLeod e Adrian Woodride, que escrevem o livro intitulado The Company, A Short Story of a Revolutionary Idea. E para isso a gente vai ter a alegria de contar com a participação, mais uma vez, do Paulo Aragão para comentar esse livro. O Paulo Aragão é sócio do escritório Barbosa Monique Aragão, BMA. Então, recordo, gente, ele já participou da temporada passada, ele é o A do BMA. É superintendente jurídico da CVM, foi sócio-diretor da GP Investimentos e ocupou uma série de posições importantes em conselhos consultivos e câmaras.

Atua sobretudo em temas de societário, fusões e aquisições e mercado de capitais. Para a gente ver a relevância desse livro e da influência do Paulo Aragão também, a gente já pode adiantar que a gente teve a menção do novo presidente da CVM, o João Pedro Nascimentos, dizendo que ele acabou de escrever uma resenha sobre esse livro e que ele aprendeu sobre esse livro justamente com o Paulo Aragão. Então, novamente, Paulo, muito obrigada por ter aceitado o convite para participar do nosso podcast e por apresentar, de um modo simples, curto e gostoso, esse tema da história da criação das sociedades. Olha, é um prazer participar desse seu café com leite mais uma vez, especialmente acerca do tema em torno do qual profissionalmente tem vivido, acho que nos últimos 40 anos, que é a sociedade anônima. Então vamos começar entendendo quem são os autores Quem são esses dois autores de nome difícil John Miklethwaite e Adrian Woodright Correndo risco de pronunciar mais uma vez erroneamente E qual é a relevância deste livro para o direito societário?

Esse livro tem uma história bastante curiosa Esses dois autores são editores do Economist Eles trabalham nos Estados Unidos e são editores sênior do Economist, que é uma revista fundada em 1843 por um jornalista e escritor chamado Walter Batesworth, e que é autor, num comentário lateral aqui, sobre um livro absolutamente fenomenal, que é A Constituição Inglesa, que, como sabem, não existe. Então, ele escreve um livro maravilhoso sobre direito constitucional em inglês, cujo capítulo talvez mais fantástico é sobre a monarquia, ou seja, para que serve um rei ou servia um rei nos itos de 1850. Como é que eu cheguei lá e como é que eu estou espalhando a informação sobre esse livro por aí? Lá pelos anos 2002, 2003 Ou por aí, não me lembro mais Eu estava lendo o Economist Que é uma revista absolutamente maravilhosa Que eu levaria para a minha ilha deserta Hoje está um pouco mais complicado Porque a assinatura é eletrônica Então eu precisaria ir para uma ilha deserta Com acesso à internet E eles faziam Um comentário Num editorial sobre três coisas, os aspectos fundamentais de uma sociedade anônima, de uma sociedade por ações, que são a responsabilidade limitada, a circulação, a possibilidade de circulação das participações e a decisão por maioria.

As ideias nos parecem absolutamente óbvias, mas, enfim, resultam de uma evolução histórica extremamente complexa rica e interessante. Eu vi a referência a esse livro que eles haviam escrito sobre o tema. É um livro pequeno e eu comprei meia dúzia, exemplares pela Amazon. Imediatamente mandei um para o professor Lamy, à época. Ou melhor, para o doutor Brunão Pedreira. Três ou quatro dias depois me liga o professor Lamy dizendo, você deu um livro para o Bulhões, eu também quero um. Eu disse, não seja por isso, professor, já está a caminho. Porque o Bulhões havia elogiado imensamente o livro para o Lamy, e é um livro que, conhecendo bem os dois, à época, é um livro que, com perdão pelo informalismo, era a cara do professor Lamy.

tudo o que ele apresentava nas palestras girava em torno disso. Esse livro hoje está traduzido. E por que esse livro é importante? Esse livro acho que se inclui numa tradição de pequenos livros, em torno de 200 páginas, sobre um tema absolutamente fundamental. Uma tradição mais francesa do que inglesa, os franceses têm uma coleção chamada Tissage, o que eu sei, que está com mais de dois mil volumes, e que com 200 páginas eles abordam superficialmente, é uma palavra injusta, mas eles abordam de uma palavra, de uma forma sintética, um tema fundamental. Essa coleção também tem uma série de outros tempos. E eu acho que por que esse livro fascinou e fascina a todos que o leem, inclusive o nosso próximo presidente da CVM?

Porque é uma análise da formação daquela máquina, daquele motor essencial do capitalismo, na expressão do ripé, que é a sociedade anônima. E ele analisa a sociedade anônima a partir, obviamente, do comércio, ou seja, do surgimento do comércio, que a gente pode perfeitamente voltar a alguns milhares de anos, em fases diversas da evolução da civilização. Então, se a gente olhar com cuidado, entre o surgimento do arado e as grandes bolsas de derivativas mundiais, nós temos apenas 2 mil anos de um processo absolutamente linear. A partir do momento em que o arado gera um excedente de produção, lá o fazendeiro vai vender aquilo para alguém. Esse processo todo se desenvolve no curso do tempo e a sociedade anônima tem um papel particularmente relevante, central mesmo em todo esse processo histórico.

Por quê? Porque a partir do momento em que o comércio se desenvolve, que o comércio assume uma expressão econômica muito grande, surgem alguns problemas fundamentais que não necessariamente poderiam ser solucionados com a estrutura do direito romano. Em primeiro lugar, obviamente, a necessidade de capitais, ou seja, em um determinado momento, a companhia, a empresa familiar, e só para lembrar, A companhia nada mais é do que uma palavra que vem do latim companis, ou seja, partilhar o pão, dividir o pão. No início, uma companhia familiar, uma empresa familiar, poderia ter capital suficiente para isso. A partir do momento em que ele se torna, ou a demanda de capital se torna maior, é necessário chamar outros capitalistas ainda em um botão. Então, esse processo de agregação de capitais decorrente das necessidades comerciais, especialmente na Idade Média, toma um papel extremamente importante e acaba se desenvolvendo, diz o livro, em duas vertentes muito claras, no norte da Europa e no sul da Europa.

No norte da Europa, as guildas, as corporações de ofício que vão reunir capitais necessários para a atividade comercial, especialmente para o comércio marítimo. No sul da Europa a gente vê isso em torno das grandes famílias, principalmente da Itália, como os Médici, em Florença, os Forza, em Milão, e outras grandes famílias das antigas repúblicas do que hoje é a Itália, os grandes impérios mercantistas. E faz sentido a necessidade de dar uma adaptada, digamos assim, que foi feita na estrutura do direito humano. Por quê? Evidentemente, eu lá, um nobre veneziano, não queria colocar em risco o meu patrimônio numa aventura. Veja, a palavra aventura e a palavra venture, joint venture, são exatamente a mesma coisa.

Um joint venture nada mais é do que uma aventura conjunta. Não queria colocar em risco o meu patrimônio com uma atividade, ou melhor, armando uma viagem marítima para comprar especiarias no Oriente Médio, antes dos portugueses encontrarem um caminho mais longo e mais eficiente para fazer isso. Então, desenvolve-se o conceito da responsabilidade limitada, ou seja, do patrimônio separado, que é eu não estou colocando em jogo, se não aquilo que eu aloco a esse patrimônio separado. No início, o patrimônio separado bastava, como dizia, o patrimônio da família, mas com a necessidade de armar navios, que eram obviamente muito dispendiosos, era necessário chamar mais gente. Ao se chamar mais gente, surge então alguma coisa que se torna absolutamente óbvia para nós hoje em dia, que é como é que a gente decide para onde vai o navio.

A resposta é óbvia hoje em dia, mas há um enorme trabalho do professor alemão, Birk, sobre o princípio da maioria. Explicando, olha, isso não nasceu em árvore, isso foi desenvolvido dentro desse conceito. Então, a maioria vai decidir para onde o navio vai. E como o terceiro aspecto desse motor do capitalismo, surge o óbvio, ou seja, a necessidade de fazer com que essas participações pudessem ser transferidas. Então, em torno desses conceitos, que são aqueles mesmo que eu mencionei originalmente, começa a se desenvolver, no curso do tempo, a sociedade anônima. Uma característica, especialmente no tocante à responsabilidade limitada, que aqui, com todo o desenvolvimento, o desenvolvimento entre aspas, que o desenvolvimento supõe alguma coisa negativa, mas com toda a caótica evolução ou involução do conceito de desconsideração da pessoa jurídica, a gente conseguiu, de certa forma, desconstruir substancialmente o conceito de responsabilidade limitada.

Mas esse conceito é muito interessante. Por quê? Obviamente, se a gente colocar a questão de uma forma bem simples, a responsabilidade limitada é o direito que alguém tem de não pagar suas dívidas. Ou de pagar suas dívidas até o valor originalmente estabelecido. E quem pode dar esse direito ao reino, principalmente numa época de monarquia absoluta? O Estado. Daí porque a responsabilidade limitada e a criação de uma sociedade anônima de responsabilidade limitada é algo que é um privilégio concedido pelo Estado. Só o Estado pode dizer, o senhor não precisa pagar mais as suas dívidas. além daquilo que se estabeleceu como a sua responsabilidade. Parece alguma coisa meio óbvia, mas é interessante notar que este conceito da possibilidade de se estabelecer uma sociedade anônima independentemente de autorização estatal ou de autorização real é algo bem recente.

É algo que surgiu na Inglaterra em 1844, na Alemanha em 1870, na França, três anos antes, e no Brasil só vai surgir nos anos 80, no século XIX. Ou seja, em que existe essa possibilidade de não mais necessitar de uma autorização estatal, de uma autorização real, para não pagar as dicas. E há uma curiosidade histórica, em pelo menos um país, que é o fato de que esta característica de que as empresas dependiam de um privilégio real, isso está presente no nome das companhias, que é o caso da Holanda. A Holanda, a KLM, a companhia aérea, esse K, e o meu holandês andam bem no dedujado, é qualquer coisa como o Kênn-Lich. ou seja, real. É companhia aérea real. A nossa Shell, do posto de gasolina da esquina, é a Royal Dutch Shell, que em holandês deve ser kereglês, qualquer coisa.

Aparecida. Então, essa ideia se mantém a tradição. Olha, isso aqui depende do rei. Não depende mais do rei. Mas ficou lá o nome. Esse privilégio concedido pelo Estado. E aí acontece uma coisa muito interessante na evolução desse processo. Acontecem várias. Mas uma delas é que, ao mesmo tempo que o Estado estabelece ou cria esse privilégio, e veja, o imposto de renda ainda não tinha sido inventado, e as rendas do Estado dependiam basicamente de tarifas e taxas sobre a propriedade. E aí o Estado, de um lado, percebe que aquilo era uma fonte de renda. E do outro lado, para ser certas atividades, eram tão grandiosas, digamos assim, que elas não podiam ser feitas sem o Estado. E aí surgem as companhias das Índias, da Holanda, a companhia das Índias inglesa, onde o Estado começa a tomar parte nessa atividade mercantil.

ou seja, está bom, vocês não têm capital suficiente para isso, eu vou participar, mas eu quero o meu pedaço. Então, a gente tem, curiosamente, lá pelo século XVII, já a participação do Estado nessas atividades, na Companhia das Índias Ocidentais. E vejam, as coisas que não acontecem por acaso dentro do direito mercantil, elas acontecem no momento que aconteceu. O que havia, literalmente, diz o livro, do outro lado da rua da SET da Companhia das Índias Ocidentais? A Bolsa. Um mercado onde estas participações eram negociadas. Então, a ideia da negociação das participações é conatural à possibilidade de que elas circulem. E é interessante que a gente vai vendo nesse processo uma série de coisas que vão surgindo, inclusive os grandes escândalos, as grandes fraudes, como a crise dos bulbos de tulipa na Holanda, que eram vendidas por cento, o que hoje representaria centenas de milhares de dólares. a falência causada por um banqueiro chamado John Law, que conseguiu o privilégio de emitir dinheiro.

E aí, na primeira grande quebra que destruiu a economia francesa, vai se evoluindo no sentido de algum tipo de controle. Então, esse processo todo da participação dos Estados e das grandes crises, nos leva, por sinal, dentro da questão de indicação bibliográfica, a dois livros, um dos quais talvez eu já tenha mencionado. Um deles é um livro absolutamente fundamental, que é o livro escrito pelo varão de Mauá, com ou sem a contribuição de algum ghostwriter, mas é um livro que ele escreve depois que ele vai à falência. chama-se Explicação aos Credores. É um livro absolutamente fundamental para se entender o comércio, a atividade econômica no Brasil. E o outro também, que no fundo é um romance, mas que os personagens na época eram absolutamente óbvios, hoje já não são, mas é um livro chamado Encilhamento do Visconde Toné, em que ele descreve exatamente o que foi a crise da especulação econômica brasileira no final ou na virada do século XIX para o século XX.

Mas esse processo é extremamente interessante, ou seja, da convivência, digamos assim, entre o Estado como poder concedente de tudo e as empresas. O Estado, ao mesmo tempo, pegando o nosso exemplo português, o Estado concedia a um povo uma carta foral, ou seja, o estatuto de cidade. E concedia também a possibilidade de se ter uma chartered company, ou seja, uma companhia com uma carta, uma companhia com um estatuto, e que recebia um verdadeiro monopólio, claro, com a obrigação de algum tipo de contribuição para o Estado. Então, esse tipo de venture, digamos assim, é exatamente o que está por trás das grandes navegações de Colombo, Magalhães, Vasco da Gama, ou seja, uma atividade comercial.

O Vasco da Gama não foi às Índias porque podia ser um lugar interessante. O Vasco da Gama foi à Índia em acata de especiarias, aproveitando a descoberta do caminho das Índias pelo sul da África como forma de concorrer com a República Veneziana e como forma de conseguir a riqueza para o reino de Portugal. Nós também não fomos descobertos por acaso, porque se plantando tudo dá. A gente foi descoberto porque poderia ser, acabou sendo, uma fonte grande de riqueza. Essa necessidade de capitais, dizia eu, da sociedade anônima, vai inspirando todo o seu desenvolvimento, principalmente na Europa, e depois, mais adiante, nos Estados Unidos. É interessante, diz o livro, esse processo que vai fazer com que, de uma certa maneira, o eixo do capitalismo mundial mude da Europa, ou da Inglaterra, para os Estados Unidos.

Por quê? Em função de uma preocupação muito grande com a ciência da administração, Ou seja, a possibilidade, a necessidade de que as empresas sejam sempre administradas de uma forma racional. E aí a gente tem os grandes gurus da administração, Peter Drucker, etc., alguns dos quais, inclusive, depois da guerra, foram ensinar a administração no Japão. Então, um pouco antes do Japão ser a maravilha do universo, eles foram ensinar a administração do Japão. Esse processo, então, de evolução, em função dessa necessidade de reunião de capitais, a gente tem três coisas, ou seja, que vão acontecer. A busca de capitais, que gera, evidentemente, a busca de produtos, de matérias-primas ou produtos industriais mais adiante, e a busca de mercado.

A busca de mercado nos leva, em última instância, às multinacionais de hoje em dia. Um processo histórico razoavelmente acidentado, digamos assim, mas onde a gente vê o centro do capitalismo mudando de um lado para o outro do oceano. É um processo extremamente interessante, é um processo que começa, dizia, na Europa da Idade Média, no final da Idade Média, no início da Idade Moderna, É um processo que, ao mesmo tempo, gera também um subproduto não econômico, que é, claramente, o Renascimento. O Renascimento não saiu barato. Era necessária uma fortuna do tamanho dos Médici para permitir a construção daquele tesouro artístico e arquitetônico que é Florença. Então, esse produto e uma série de coisas que acabam se desenvolvendo.

Por exemplo, algo que é um primo e irmão da sociedade anônima e também dentro da linha, como eu costumo brincar, ninguém saiu de manhã e disse a mulher, hoje eu vou inventar a sociedade anônima e volto um pouco mais tarde. sociedade anônima é o produto da atividade da criatividade do comerciante, do mercador do empresário e que o advogado vai tentando organizar fazendo o possível para não estragar e dentro do comércio marítimo é muito interessante porque a sociedade anônima tem um primo e irmão que acaba sendo uma prima irmã que acaba sendo pouco lembrado, mas que é extremamente importante, principalmente no âmbito do comércio, ou seja, vamos imaginar que eu quisesse, enfim, vir para termos mais modernos, exportar alguma coisa para a Argentina.

Eu exporto para a Argentina e aí eu passo a ter um crédito contra o importador argentino. A professora Amanda, ao seu turno, quer importar alguma coisa da Argentina e precisa de visas da moeda argentina. Eu tenho um crédito. O que ela faz? Ela me compra esse crédito e nada mais é isso do que a letra de câmbio. Ou seja, eu endosso o meu crédito contra o empresário argentino e a professora Amanda usa isso para pagar o débito que ela tem. O câmbio por quê? Porque na Itália, cada país tinha lá a sua moeda, ou cada reino tinha lá a sua moeda. Então, isso servia ao mesmo tempo para transferir o crédito e para permitir a circulação da moeda. Isso é novidade? Não. Um livro maravilhoso de história do direito comercial, talvez o mais maravilhoso de todos, reconhecido por todo mundo, que é um livro italiano, de Goldsmith, que é a história do direito comercial, e que é interessante o seguinte, para quem quiser treinar o seu italiano, fundamental em direito comercial, a Biblioteca do Supremo Tribunal tem, e isso é pouco conhecido, um segmento de obras digitalizadas no domínio público que podem ser baixadas e copiadas.

Então, há um conjunto imenso de obras maravilhosas entre as quais essa história do direito comercial... Por que eu me lembro disso? Porque ele transcreve na língua do comércio da época, que é o latim, letras de câmbio sacadas no século XII. Então, esse processo todo do comércio, o comércio que faz, os autores vão analisando, que faz as sociedades se desenvolverem, as cidades se desenvolverem e gera toda uma atividade dentro das cidades europeias, no sentido de criar feiras, trazer o comércio, trazer as pessoas para comerciar, que é extremamente interessante. E qual é uma boa maneira, dentro da cultura medieval, estamos falando da virada dos anos 1000, entre o século X e o século XII, qual é uma boa maneira de fazer todo mundo ir para lá?

Fazer uma feira. E, ao mesmo tempo, o que faz uma feira? atrair pessoas, uma boa catedral. Então, nós temos as catedrais góticas sendo criadas, isso vai trazer peregrino, isso vai trazer gente, isso vai trazer mercado, isso vai trazer a nossa riqueza. Isso era a atração turística do século XI, não tinha grande coisa para ver, a não ser as catedrais maravilhosas que foram construídas na época também com o dinheiro do mercado. Enfim, sem me estender mais, é muito interessante esse processo de como o mercado cria e desenvolve as cidades. Por exemplo, até algum momento, no final da Idade Média, todo o comércio pelo norte da Europa saía para uma cidade da Bélgica, do que hoje é a Bélgica, que é Grosso. Essa cidade era conhecida como a Veneza do Norte.

Só que os canais que levavam o acesso à Bruges foram assurriando. O que eles tentaram fazer? O óbvio, ou seja, construir um dique. Um dique numa cidade que leva esse nome do dique, que é Dam. Uma montanha de línguas, ou seja, um dique. O dam não funcionou, o ruiz morreu, para a sorte nossa como turista, porque a gente tem até hoje uma cidade medieval perfeitamente preservada. A última vez que eu fiquei lá, o meu hotel tinha sido construído em 1450. Já tinha água quente, mas o prédio datava do século XV, ou seja, um pouco antes de o Brasil ser descoberto. Isso também como parte da atividade comercial. Enfim, a sociedade anônima nada mais é do que esse elemento mais ostensivo do que num livro conhecido e muito interessante, do que a história da riqueza do homem.

E eu acho que esses dois autores, conseguindo de uma forma um pouco mais sintética e bem mais organizada do que eu, desenvolver ou analisar esse processo de evolução da sociedade anônima. Para concluir, há um aspecto muito interessante que, na verdade, vem depois do livro. O livro é de 2003, onde o que eu vou mencionar ainda não era algo tão radical. Mas o processo mais interessante é que a gente viu no curso do século XX, exatamente em função dessa necessidade cada vez maior de capitais, que acabou levando à criação das corporações, ou seja, a família Ford não tinha como manter o controle da sociedade com a maioria do capital. a gente viu um processo de despersonalização da empresa, ou seja, uma sociedade onde o capital passou a ser mais importante que o capitalista.

Só que a gente viu agora, ou está vendo agora, uma interessantíssima reversão desse processo em que a gente volta a ver as sociedades anônimas de capitalistas, ou seja, é uma sociedade onde pessoas como Steve Jobs, Bill Gates, o Pezos da Amazon, Zuckerberg do Facebook e, claro, o mais famoso de todos ultimamente, o próprio Elon Musk, são sociedades anônimas gigantescas, mas onde a figura do capital é fundamental, mas a figura do capitalista é mais importante ainda, com uma característica que acabou revolucionando um dos dogmas da sociedade anônima. Durante muito tempo, o grande dogma da sociedade anônima era one share, one vote. Todo mundo tem um voto.

Falar em ações preferenciais, mesmo no Brasil, era considerado uma evidência ou demonstração de atraso. A ação sem direito a voto era culpa de todos os males. O Brasil não se desenvolvia por força da saúva e da ação sem direito a voto. O que nós temos hoje no mundo inteiro? A ação com voto plural, ou seja, o reconhecimento de que se amanhã o Steve Jobs se ainda tivesse vivo e dissesse, Será que eu posso ter dez vezes mais votos que você, desde que eu invente um iPhone a cada dez anos? Eu diria, claro que pode, sem problema nenhum. Até 15, se você achar que é melhor. Então, esse processo que troca os Rockefellers, os Ford, os Carnegie, os Morgan, da virada do século XX para as grandes corporations, dá uma pirueta completa e volta ao capitalismo de capitalistas.

Então, com institutos, enfim, como voto múltiplo e dentro da linha. E é curioso, porque o capital, enfim, aquela velha história de que o dinheiro não leva desaforo para casa. A Bolsa de Hong Kong era absolutamente rigorosa. quanto ao conceito de que a One Share One Vote era algo absolutamente dogmático. A maior... A companhia que iria fazer o maior IPO do mundo, que era a Alibaba, disse, não, mas eu quero fazer ações com voto plural. E a Bolsa de Hong Kong disse, sabe, não pode. Então, não brinco aqui. vou fazer o meu IPO perdão vou fazer o meu IPO em outro lugar que efetivamente fez o que fez a bolsa de Hong Kong ainda que tardiamente pensando melhor eu acho que podemos mudar o nosso sistema em função dos bons argumentos que você me trouxe e agora a bolsa de Hong Kong já admite ações com voto plural, tanto quanto a nossa B3 aqui no Brasil, que também criadora do fantástico novo mercado, passou a admitir também ações com voto plural.

Enfim, dessa vez eu concluo mesmo. O processo descrito da evolução da atividade econômica, da qualidade econômica, dessa busca de capitais, busca de mercado, busca de novos produtos, de novos processos. Tudo isso é muito bem descrito por esses dois autores. Esse livro é absolutamente fascinante. São livros pequenos, mas fundamentais. A gente havia mencionado da outra vez um outro, que esse não tem tradução, que é o livro do Max Weber sobre a bolsa, também é extremamente interessante. É um livro pequeno e que escreve a evolução e o funcionamento das Bolsas. Tem umas ideias, um tanto quanto críticas demais, da Bolsa, que um século veio demonstrar que estavam erradas numa série de outras ideias econômicas no início do século XX, que não deram certo.

mas o livro também é absolutamente maravilhoso mas enfim, é um prazer participar desse café com leite aqui e espero que tenha conseguido fazer um bom resumo do livro excelente resumo do livro eu acho que foi interessante cotejar essa evolução e eu achei super bacana esse insight final de que a gente teve um processo de, aqui, utilizando um pouco da terminologia, agora a gente está num capitalismo de capitalistas, então, com o processo de personificação de algumas sociedades, superando talvez aquela ideia inicial do capitalismo de capital mesmo, de que o capital seria o mais importante. Isso traz uma série de repercussões, pensando aqui alto a parte de solução parcial de sociedades anônimas, quando a gente tem o caráter personalista também, A gente vê essa questão, a questão do voto plural, que foi forte também, foi uma das razões de algumas empresas brasileiras realizarem IPOs na Bolsa de Nova York.

Então, a gente percebeu isso acontecendo não só em Hong Kong, mas aqui. E aí, minha pergunta final era, você, então, concorda que a criação das sociedades anônimas é, de fato, uma ideia revolucionária? e quais que são possíveis repercussões ou desafios que a gente pode ter com base nessa evolução histórica e esse duplo twist carpado que a sociedade anônima tem vivenciado? Olha, eu acho que a ideia revolucionária é alguma coisa que surge, alguma coisa que começa. Se há uma ou duas sociedades anônimas ou sociedades, estão se aproximando de mil anos. Quer dizer, alguma coisa que leva mil anos para desenvolver, a revolução talvez não seja o melhor conceito. Eu acho que é algo numa evolução constante, numa evolução permanente e numa evolução absolutamente fantástica.

É algo que deu certo, em última instância. e deu certo dentro dessa perspectiva do papel fundamental do comerciante, do empresário como gerador e negociador de riquezas. Interessantíssimo. Então, a gente já teve aqui algumas boas recomendações, mais recomendações de livro. Na última temporada, a gente teve uma série de recomendações durante a gravação, depois a gente fez ainda alguns posts no Instagram também, com outros livros também então fica aqui a nossa recomendação para recuperarem lá esse post com as outras recomendações do Palo Aragão e aí uma pergunta dessa terceira temporada, se você puder compartilhar com a gente alguma coisa que foi um tropeço na sua trajetória profissional algum percalço que eventualmente tenha sido vivido, que não saiu como inicialmente desejado mas que foi relevante, que foi importante para a sua trajetória, que você possa compartilhar com os alunos da graduação, com os nossos ouvintes, para que a gente perceba, tenha a tranquilidade de que os caminhos não são só com altos, existem altos e baixos em toda a trajetória.

Veja, eu acho que há duas coisas aqui, sem dizer altos e usar o conceito de altos e baixos. Em primeiro lugar, o que não funcionou como previsto? Não é razoável dizer que não deu certo. Em primeiro lugar, a minha carreira. Eu comecei escrevendo sobre processo civil, dando aula sobre processo civil. Até hoje me perguntam se eu sou parente do professor Paulo César Aragão, que escreveu o livro sobre processo civil. Daí, enfim, eu fui para a CVM, porque eles precisavam, achavam, precisavam alguém da área de contencioso, não tinha contencioso, sobrou direitos societários. Então, eu acabei me especializando em direitos societários. O que eu acho que é a mensagem? Quer dizer, aproveitar as oportunidades da vida, aproveitar que ela nos abre sempre em função de muito trabalho, muito esforço e ter certeza para quem está começando e tentar fixar uma linha de atuação profissional até a aposentadoria ou seja, sair da faculdade imaginando que vai terminar com o ministro do Supremo Tribunal Federal e se aposentar como tal leva a uma grande chance muito grande de ficar frustrado porque só há 11 deles, etc.

Eu acho que o mais importante é exatamente isso, aproveitar a oportunidade que a vida nos dá e do ponto de vista mais específico. É claro, para quem atua em inclusões e aquisições, algumas não funcionam. Negócios que não funcionam e na última hora, por alguma razão, deixam de ser concluídos incluídos ou não são aprovados, eventualmente, por força do Cádio ou de algum outro problema, ou de um problema depois. Eu acho que o mais importante nesse tipo de situação é um pouco de reflexão, quer dizer, por que não deu certo? Será que eu fiz o meu melhor possível? O que eu aprendi nesse caso para os próximos negócios, para as próximas ocasiões? que erros eu não vou cometer mais ou que cuidados adicionais eu vou ter. E claro, não dá para dizer que isso aqui é a solução de todos os erros, mas eu acho que esse reconhecimento que a gente tem que aprender quando as coisas não dão certo, em alguns casos isso infelizmente acontece, Infelizmente, nem sempre é tão infelizmente assim.

Um grande cliente que eu tenho, eu estava do outro lado da mesa, criei tal confusão judicial que ele não conseguiu fazer o negócio, ele me agradece até hoje, porque disse que teria sido um resultado catastrófico se eu tivesse feito aquele negócio. Não necessariamente o que a gente idealiza é o que vai ser o melhor para a gente, a gente só vai descobrir depois. Então, muito obrigada por compartilhar com a gente. esse livro, outras sugestões um pouco da sua trajetória com isso então a gente conclui a nossa conversa, te agradeço muito pela presença mais uma vez no podcast e espero que a gente tenha aqui a sua presença nas outras temporadas também para ir aos pouquinhos passando em cada um desses livros que são pilares do direito empresarial para a gente poder ir propagando aos poucos Obrigada! É um prazer! Vou parar a gravação Tchau.